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DITOS POPULARES [Sandra Paes]

Outro dia me peguei pensando sobre o uso e origem de algumas expressões. Tenho uma amiga que está sempre citando um ou outro e percebo que desconheço muitos deles.

Por exemplo: "A cavalo dado não se olha os dentes." Será que alguém hoje em dia dá algum cavalo pra alguém? Me parece coisa do tempo do império isso ai. E olhando para algum caso, em algum ambiente ainda ouço: "Quem semeia vento colhe tempestade." Essa é dificil de localizar.

E fiquei curiosa ainda mais: quem ainda hoje usa no seu corrente falar ou escrever os ditos populares?

Há algumas expressões que, lembro bem, ouvia minha avó falar. Coisas que nunca mais ouvi. E me pego surpresa ao ver programas como novelas de adolescentes, onde literalmente sofro pra entender o que dizem. Não gosto de gírias - de maneira geral, nunca as usei e agora então, nem me dou conta mais do que se usa.

Afinal, idioma muda com o tempo, com os hábitos, com os convivios, com as descobertas e com as turmas. Sinto que não sei mais o que é realmente popular ou não.
E ainda mais quando, vez por outra, vejo uma apresentadora de televisão que frequentemente usa tais ditos. O mais intrigante deles pra mim é: "A voz do povo é a voz de Deus."

Quem será que cunhou isso? E na medida que a voz do povo se faz tão manipulada pelo marketing e pela mídia de forma geral, o que será que Deus tem a ver com isso? E, aliás, de quem Deus falam?

Penso nos versos de Gilberto Gil na canção "Se eu quiser falar com Deus..." e se para ouvir a Deus há que se ouvir o povo, gente do céu!, como fica tudo tão complicado, não?

Vai se esbarrar em conceitos de escolhas, corredores de possibilidades, pesquisas de opinião, livre arbítrio - que de livre nada tem de tantas regras e leis espalhadas por aí -, e mais toda a vigilância possível da moralidade vigente ou subjacente.

Num mundo onde se fala apenas em crise, em corte de gastos, em novos rumos de vida, em economia de água e de espaço, em apertar os cintos, onde os governos nada governam e bandidos assaltam até os quartéis em busca de novas armas e munições, o que seria mesmo popular?

No meu tempo de garota, arrastão era nome de música. Hoje é nota de jornal para se referir a assalto coletivo. Será que virou também um dito popular? Nos tempos em que Buzios ainda tinha ruas de terra, ver o arrastão era acompanhar de perto o trabalho dos pescadores puxando as redes e ainda participar disso. Hoje, se alguém disser, vai ter arrastão na praia, indica perigo. E fico logo pensando que teria que aprender um bom número de jargões e ditos populares apenas pra visitar minha cidade natal, quiçá ter que viver nela.

Dá um cansaço só de pensar. Meu tempo de adaptação e a vontade de me fazer parte de um todo onde sou uma peça que sobra, andam lentos e escassos. E ainda há que se perseguir a felicidade. Listas de cuidados com a pele, com o trânsito, com a alimentação, com a qualidade da água que se banha e se bebe, com as pessoas com quem se fala, com as companhias telefônicas, com os provedores de serviços de internet, com os abusos de cobranças bancárias, com a qualidade dos produtos nos mercados e ainda, fiscalizar a saúde, os exames anuais, etc. Onde se esconde a felicidade diante de tudo isso?

O que me fez lembrar mais um outro dito popular, esse muito citado pela minha saudosa mãe: "Felicidade é como um guarda-chuva, sempre está onde a colocamos, mas nunca estamos onde a pusemos." Mais ou menos isso, apenas pra dizer que acabava sempre tomando chuva nos finais de tarde no verão, por que sempre deixara o guarda chuva em casa, mais cedo.

Agora, olho a televisão e vejo a cidade de Sao Paulo totalmente alagada. Ruas inteiras devastadas e dezenas de pessoas desabrigadas e sem ter onde morar mais, por conta de uma tempestade de verão. Vale o que esse ditado diz sobre a felicidade?
Não tem guarda-chuva nem dito popular que ajude a amainar os tempos de agora. A violencia abunda até na natureza. E o povo nada diz sobre o que Deus acha de tudo isso.

Vou aposentar meu vernáculo.

Comentários

Debora Bottcher disse…
Sandra, querida,
Sempre rio muito com os seus textos. Eles trazem verdades de forma tão simples, em linguagem tão leve e clara, lembranças tão antigas, que é impossível não se entreter, rir e sorrir com suas mensagens... Sempre um primor...
Super beijo.
Anônimo disse…
Adoro... simplesmente adoro.
Tudo o que diz sempre faz muito sentido.
Verdadeira aptidao para o esclarecimento.

Beijo
Cristina Alegre