sábado, 21 de março de 2009

DITOS POPULARES [Sandra Paes]

Outro dia me peguei pensando sobre o uso e origem de algumas expressões. Tenho uma amiga que está sempre citando um ou outro e percebo que desconheço muitos deles.

Por exemplo: "A cavalo dado não se olha os dentes." Será que alguém hoje em dia dá algum cavalo pra alguém? Me parece coisa do tempo do império isso ai. E olhando para algum caso, em algum ambiente ainda ouço: "Quem semeia vento colhe tempestade." Essa é dificil de localizar.

E fiquei curiosa ainda mais: quem ainda hoje usa no seu corrente falar ou escrever os ditos populares?

Há algumas expressões que, lembro bem, ouvia minha avó falar. Coisas que nunca mais ouvi. E me pego surpresa ao ver programas como novelas de adolescentes, onde literalmente sofro pra entender o que dizem. Não gosto de gírias - de maneira geral, nunca as usei e agora então, nem me dou conta mais do que se usa.

Afinal, idioma muda com o tempo, com os hábitos, com os convivios, com as descobertas e com as turmas. Sinto que não sei mais o que é realmente popular ou não.
E ainda mais quando, vez por outra, vejo uma apresentadora de televisão que frequentemente usa tais ditos. O mais intrigante deles pra mim é: "A voz do povo é a voz de Deus."

Quem será que cunhou isso? E na medida que a voz do povo se faz tão manipulada pelo marketing e pela mídia de forma geral, o que será que Deus tem a ver com isso? E, aliás, de quem Deus falam?

Penso nos versos de Gilberto Gil na canção "Se eu quiser falar com Deus..." e se para ouvir a Deus há que se ouvir o povo, gente do céu!, como fica tudo tão complicado, não?

Vai se esbarrar em conceitos de escolhas, corredores de possibilidades, pesquisas de opinião, livre arbítrio - que de livre nada tem de tantas regras e leis espalhadas por aí -, e mais toda a vigilância possível da moralidade vigente ou subjacente.

Num mundo onde se fala apenas em crise, em corte de gastos, em novos rumos de vida, em economia de água e de espaço, em apertar os cintos, onde os governos nada governam e bandidos assaltam até os quartéis em busca de novas armas e munições, o que seria mesmo popular?

No meu tempo de garota, arrastão era nome de música. Hoje é nota de jornal para se referir a assalto coletivo. Será que virou também um dito popular? Nos tempos em que Buzios ainda tinha ruas de terra, ver o arrastão era acompanhar de perto o trabalho dos pescadores puxando as redes e ainda participar disso. Hoje, se alguém disser, vai ter arrastão na praia, indica perigo. E fico logo pensando que teria que aprender um bom número de jargões e ditos populares apenas pra visitar minha cidade natal, quiçá ter que viver nela.

Dá um cansaço só de pensar. Meu tempo de adaptação e a vontade de me fazer parte de um todo onde sou uma peça que sobra, andam lentos e escassos. E ainda há que se perseguir a felicidade. Listas de cuidados com a pele, com o trânsito, com a alimentação, com a qualidade da água que se banha e se bebe, com as pessoas com quem se fala, com as companhias telefônicas, com os provedores de serviços de internet, com os abusos de cobranças bancárias, com a qualidade dos produtos nos mercados e ainda, fiscalizar a saúde, os exames anuais, etc. Onde se esconde a felicidade diante de tudo isso?

O que me fez lembrar mais um outro dito popular, esse muito citado pela minha saudosa mãe: "Felicidade é como um guarda-chuva, sempre está onde a colocamos, mas nunca estamos onde a pusemos." Mais ou menos isso, apenas pra dizer que acabava sempre tomando chuva nos finais de tarde no verão, por que sempre deixara o guarda chuva em casa, mais cedo.

Agora, olho a televisão e vejo a cidade de Sao Paulo totalmente alagada. Ruas inteiras devastadas e dezenas de pessoas desabrigadas e sem ter onde morar mais, por conta de uma tempestade de verão. Vale o que esse ditado diz sobre a felicidade?
Não tem guarda-chuva nem dito popular que ajude a amainar os tempos de agora. A violencia abunda até na natureza. E o povo nada diz sobre o que Deus acha de tudo isso.

Vou aposentar meu vernáculo.

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2 comentários:

Debora Bottcher disse...

Sandra, querida,
Sempre rio muito com os seus textos. Eles trazem verdades de forma tão simples, em linguagem tão leve e clara, lembranças tão antigas, que é impossível não se entreter, rir e sorrir com suas mensagens... Sempre um primor...
Super beijo.

Anônimo disse...

Adoro... simplesmente adoro.
Tudo o que diz sempre faz muito sentido.
Verdadeira aptidao para o esclarecimento.

Beijo
Cristina Alegre