Pular para o conteúdo principal

MÃE NATUREZA >> Eduardo Loureiro Jr.

Aline Belfort - Flickr.com

Depois do agito de ontem, hoje tudo está mais calmo.

O casal que passou a noite em claro, talvez de festa em festa, bebendo e falando alto, deixa as ondas molharem a saia e a calça. O trio de amigos, também vestidos para a noite que já se foi, troca a embriaguez arriscada por ingênuas cambalhotas no raso.

Eu caminho à beira-mar, no início da manhã, ainda com cara de quem acordou há pouco: sandálias numa das mãos e camiseta jogada sobre o ombro. De calção de banho, eu sou o estranho em meio a trajes de festa e farra.

O mar acalmou também. Ontem ele estava cheio de não-me-entres. Ondas quebrando umas atrás das outras, ao mesmo tempo, demarcando território, provocando medo. Hoje parece que Deus resolveu passar a ferro a superfície do mar: água lisinha de lago. De mar, apenas a renda sutil das ondas — uma de cada vez —, quebrando já pertinho da areia. Entrei, saltei o muro suave de espuma e fiquei naquele lugar tranquilo de mar, antes da onda rebentar. Deu até pra compor pequenos versos mentalmente:

Quando o mar cala
o vento fala.

*

A onda faz silêncio
antes de quebrar.

*

O mar
— sereno —
finda
na praia
— do futuro —
com estrondo.

Até o meu amor, minha mulher, que ontem era ruidoso silêncio, hoje resolveu amanhecer com suaves palavras. "Depois da tempestade, a bonança" — bonito é o dia em que o que é ditado torna-se vivido.

— É preciso mesmo isso tudo?

— Sim, meu filho, é preciso.

— Mas, mãe, eu não tenho paciência.

— Pois, meu filho, tenha pelo menos coragem.

Hoje a vida se desdobra atendendo a pedidos. Penso, logo existE. O pensamento vai acontecendo coisas: uma carona, uma conversa, uma crônica, uma visita, uma comida.

Partida em cima de partida, e ainda falta tanto tempo pra voltar pra casa. Vou caminhando à beira-mar dos dias, catando pedrinhas de saudade e lembrando trechos de um poema antigo:

O mar é maior.
Andar na praia
até cegar o sol.
Até ser longe demais
para voltar.
Até não ter
como atravessar.
Até parar.

Deixando pegadas, adquirindo pegada. Na casa da Mãe Natureza, tem colo, engatinhado, queda, caminhada, choro, estripulia, chocolate, dor de barriga. Mãe Natureza, mesmo quando viaja, deixa a comida, mas tem que tirar da geladeira; deixa a luz, mas quer que a gente acenda; deixa a alegria, mas tem que limpar a sujeira.

E o dia amanhã talvez volte a ser de agito. Que seja, ou que não seja. Eu amanhã talvez ainda continue a ser calmo. Que seja-não-seja. Filho crescendo à imagem da mãe, vou aprendendo a transparecer a sua-minha Natureza.


Comentários

Anônimo disse…
Edo,

Depois da tempestade vem a bonança e depois da bonança vem a tempestade. Mas, tanto na bonança como na tempestade sempre existirá um porto seguro.

Finalmente li mais um texto seu. Estava com saudades. E feliz por ser a primeira a comentar.
Juliêta Barbosa disse…
Eduardo,

"Vou caminhando à beira-mar dos dias, catando pedrinhas de saudade e lembrando trechos de um poema antigo:"

Que as pedrinhas de 'saudades esquecidas'(ou seriam, adormecidas?) lhe tragam o mais breve possível para perto de nós. Encontrá-lo aqui, nesse espaço, não aquieta o nosso coração de fã. Queremos tê-lo no colo, como uma boa mãe.Você merece esse afago, essa ternura, pelo bem que nos faz através das suas palavras.
Que surpresa boa, Dilma! Tô aqui tentando me equilibrar no porto seguro. :)

Juliêta, o colo das suas palavras é um grande merecimento para mim. :)
Letti disse…
Coisa boa isso de ir "Deixando pegadas, adquirindo pegadas". Tenho certeza que o agito de amanhã é de partida desejada e que você fará e recolherá pegadas pela estrada. E que seja doce.
beijo grande (já com saudade antecipada!)
Grato pela doce bênção, Claudia. :)
Carla Dias disse…
Que vontade de mergulhar neste cenário que você pintou em palavras...
Ué, Carla, pensei que você ia aproveitar o momento da leitura. :)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …