domingo, 15 de março de 2009

MÃE NATUREZA >> Eduardo Loureiro Jr.

Aline Belfort - Flickr.com

Depois do agito de ontem, hoje tudo está mais calmo.

O casal que passou a noite em claro, talvez de festa em festa, bebendo e falando alto, deixa as ondas molharem a saia e a calça. O trio de amigos, também vestidos para a noite que já se foi, troca a embriaguez arriscada por ingênuas cambalhotas no raso.

Eu caminho à beira-mar, no início da manhã, ainda com cara de quem acordou há pouco: sandálias numa das mãos e camiseta jogada sobre o ombro. De calção de banho, eu sou o estranho em meio a trajes de festa e farra.

O mar acalmou também. Ontem ele estava cheio de não-me-entres. Ondas quebrando umas atrás das outras, ao mesmo tempo, demarcando território, provocando medo. Hoje parece que Deus resolveu passar a ferro a superfície do mar: água lisinha de lago. De mar, apenas a renda sutil das ondas — uma de cada vez —, quebrando já pertinho da areia. Entrei, saltei o muro suave de espuma e fiquei naquele lugar tranquilo de mar, antes da onda rebentar. Deu até pra compor pequenos versos mentalmente:

Quando o mar cala
o vento fala.

*

A onda faz silêncio
antes de quebrar.

*

O mar
— sereno —
finda
na praia
— do futuro —
com estrondo.

Até o meu amor, minha mulher, que ontem era ruidoso silêncio, hoje resolveu amanhecer com suaves palavras. "Depois da tempestade, a bonança" — bonito é o dia em que o que é ditado torna-se vivido.

— É preciso mesmo isso tudo?

— Sim, meu filho, é preciso.

— Mas, mãe, eu não tenho paciência.

— Pois, meu filho, tenha pelo menos coragem.

Hoje a vida se desdobra atendendo a pedidos. Penso, logo existE. O pensamento vai acontecendo coisas: uma carona, uma conversa, uma crônica, uma visita, uma comida.

Partida em cima de partida, e ainda falta tanto tempo pra voltar pra casa. Vou caminhando à beira-mar dos dias, catando pedrinhas de saudade e lembrando trechos de um poema antigo:

O mar é maior.
Andar na praia
até cegar o sol.
Até ser longe demais
para voltar.
Até não ter
como atravessar.
Até parar.

Deixando pegadas, adquirindo pegada. Na casa da Mãe Natureza, tem colo, engatinhado, queda, caminhada, choro, estripulia, chocolate, dor de barriga. Mãe Natureza, mesmo quando viaja, deixa a comida, mas tem que tirar da geladeira; deixa a luz, mas quer que a gente acenda; deixa a alegria, mas tem que limpar a sujeira.

E o dia amanhã talvez volte a ser de agito. Que seja, ou que não seja. Eu amanhã talvez ainda continue a ser calmo. Que seja-não-seja. Filho crescendo à imagem da mãe, vou aprendendo a transparecer a sua-minha Natureza.




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7 comentários:

Anônimo disse...

Edo,

Depois da tempestade vem a bonança e depois da bonança vem a tempestade. Mas, tanto na bonança como na tempestade sempre existirá um porto seguro.

Finalmente li mais um texto seu. Estava com saudades. E feliz por ser a primeira a comentar.

Juliêta Barbosa disse...

Eduardo,

"Vou caminhando à beira-mar dos dias, catando pedrinhas de saudade e lembrando trechos de um poema antigo:"

Que as pedrinhas de 'saudades esquecidas'(ou seriam, adormecidas?) lhe tragam o mais breve possível para perto de nós. Encontrá-lo aqui, nesse espaço, não aquieta o nosso coração de fã. Queremos tê-lo no colo, como uma boa mãe.Você merece esse afago, essa ternura, pelo bem que nos faz através das suas palavras.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que surpresa boa, Dilma! Tô aqui tentando me equilibrar no porto seguro. :)

Juliêta, o colo das suas palavras é um grande merecimento para mim. :)

Letti disse...

Coisa boa isso de ir "Deixando pegadas, adquirindo pegadas". Tenho certeza que o agito de amanhã é de partida desejada e que você fará e recolherá pegadas pela estrada. E que seja doce.
beijo grande (já com saudade antecipada!)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato pela doce bênção, Claudia. :)

Carla Dias disse...

Que vontade de mergulhar neste cenário que você pintou em palavras...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ué, Carla, pensei que você ia aproveitar o momento da leitura. :)