terça-feira, 10 de março de 2009

DOENÇA INCURÁVEL (parte 2) -- Paula Pimenta

Parece castigo. Exatamente um mês atrás, escrevi uma crônica falando da minha paixão por cachorros. Nela, contei a história de cada um dos seis cachorros que temos em casa, expliquei que muitos deles não foram planejados, e que não duvidava que daqui a pouco aparecessem mais, já que eu não consigo ver um cachorro carente e olhar para o outro lado. Aposto que foi praga de alguém que não gosta de animais (já que eu chamei esses de “sem coração” na tal crônica), porque agora – apenas 30 dias depois – temos mais um habitante canino por aqui.

Sexta-feira passada, meu irmão estava chegando em casa, quando viu um cachorro andando de um lado para o outro em nossa rua. Ele ia para a direita, subia, rodava o quarteirão, voltava... e estava bebendo água suja de uma poça. Nessa hora, meu irmão não aguentou. Eu também não aguentaria. Colocamos o “cachorrinho” pra dentro, onde ele está até o presente momento, terça-feira à noite. Acontece que na verdade ele não é um cachorrinho. Ele é um boxer enorme! Enorme, lindo e muito manso. Estava morrendo de fome e de sede. Imaginei que o dono dele morasse por perto e estivesse desolado. Imediatamente comecei a busca, liguei para praticamente todas as casas do bairro, mas descobri que ninguém nas redondezas perdeu cachorro nenhum. No sábado imprimi vários cartazinhos com a foto dele, distribuí pelas padarias, pet-shops e lanchonetes da região, mas o telefone não tocou nenhuma vez. Em um dos pet-shops, um funcionário falou algo que já tinha passado pela minha cabeça: “Será que ele não foi abandonado? Está muito na moda abandono de cães...”

No dia em que eu publiquei a crônica passada, muita gente me escreveu sugerindo que eu incluísse crianças carentes no tal centro para animais perdidos, onde eu tenho a intenção de investir meu dinheiro, caso venha algum dia a ganhar na loteria. Só que se eu fizesse isso, não seria um centro de acolhimento para animais, as crianças passariam a ser o foco principal e aí o meu projeto perderia o sentido. Eu quero criar um lugar onde o animal seja prioridade, porque nesse mundo de humanos, eles sempre estão em segundo plano e nunca recebem o devido valor.

Outro dia li o seguinte texto no orkut de uma amiga:

Para pensar um pouco:

“Doa-se uma criança clara, olhos azuis, inteligente e bem educada. É muito dócil e se dá bem com todos. Motivo: Mudança.”


”Criança será eutanasiada se não encontrar uma família para adotá-la urgente!”

“Criança será abandonada nas ruas se não encontrar uma nova família!”

“Criança que urina e defeca fora do lugar procura um lar com família que tenha tempo e paciência pra limpar suas necessidades.”

“Estou noiva e vou me casar em dezembro. Meu noivo não gosta de crianças, então estou doando meu filho.”

Porque o espanto? Troque a palavra criança pela palavra cão e gato, assim você não se assusta com os anúncios, não é mesmo? Quem assim faz, faz em todos os campos da vida.


O texto acima reflete exatamente meu pensamento. Quem tem coragem de abandonar um animal, abandona qualquer coisa, não tem responsabilidade, compaixão, solidariedade e nem amor no coração. Já escutei casos de gente que por não querer mais o cachorro, o solta na estrada para que ele seja atropelado. Isso é muito mais do que covardia, é falta de caráter mesmo! Pena de morte pra uma pessoa dessas! Volto a dizer que me compadeço mais de cachorros de rua do que crianças na mesma situação. Se soltam uma criança no mundo, ela vai andando até encontrar alguém pra explicar a situação. Se soltam um cachorro, o que acontece? Ou ele vai ser mesmo atropelado, ou vai pegar alguma doença, ou morre de fome, a não ser que alguma louca que já tenha seis cachorros em casa resolva acolhê-lo.

Voltando ao ‘meu’ boxer, gostaria muito mesmo de poder ficar com ele, já estou completamente apegada, mas infelizmente eu ainda não ganhei na loteria e não tenho o centro dos meus sonhos para dar a ele hospedagem vitalícia. Os seis daqui de casa ocupam todos os espaços possíveis e a manutenção deles já é muito cara também. Se o dono realmente não aparecer (e já estou achando que não vai), vou ter que doá-lo. Só espero encontrar alguém que possa amá-lo como ele merece. Com apenas cinco dias de convivência, eu já estou apaixonada, tenho certeza de que ele conquista qualquer um.

Você aí, que está lendo essa crônica, já pensou em ter um boxer?
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2 comentários:

Anônimo disse...

Au, au, au, Paula, me adota Beré.

Anônimo disse...

Parabéns Paula. Mais uma vez você foi muito feliz na expressão de suas ideias e sentimentos.
Janyr Menezes.