terça-feira, 3 de março de 2009

"Doutor, meu braço ficou curto!" >> Claudia Letti

Não foi uma surpresa tão grande assim, quando há uns 3 anos (ou mais), no meio de uma loja de departamentos, meu celular tocou e, antes que pudesse identificar a chamada no visor, minha filha anunciou, zombeteiramente: "Mãe, você precisa ir a um oculista". Claro que eu precisava. Já fazia algum tempo que eu me via distanciando os objetos dos olhos, a fim de poder enxergar suas letras menores e andava tendo experiências gastronômicas estranhas por conta de cardápios borrados mas, foi com o flagrante quase vexatório da minha filha adolescente - e que usa óculos por miopia -, que eu decidi visitar um oculista e anunciar sem mais delongas: "Doutor, meu braço ficou curto!"

O diagnóstico não poderia ter sido diferente, a perda da visão para perto ocorre com a idade e, na faixa dos 40, todos os que ainda não conhecem, são apresentados a um oftalmologista. Devo dizer que eu fiquei desapontada comigo mesma, que desde menina sonhava em usar óculos; acreditando que confere um certo charme, um ar intelectual, um toque de sensualidade a quem usa; essas imagens que fazemos quando a vida voa e a idade não tem a menor importância. Mas, de posse de meus primeiros óculos de grau - com o qual eu esperava que meu braço voltasse ao seu tamanho normal -, não me senti sexy nem com aquele ar intelectualóide blasé que eu comprava dos anúncios de marcas e óticas. Fui usando meu novo "acessório" com parcimônia, relutante que só e apenas para ler livros, de fato. Negligenciei o pequeno objeto no mundo paralelo dos rejeitados, ávidos a prestar um favor para sentirem-se úteis ao menor movimento de seus donos e, por precaução, voltei a ser fiel ao feijão-com-arroz da gastronomia carioca.

Até que, dia desses, num encontro familiar entre primos da mesma idade, descobri que não estamos sós. Nem eu, com minha paulatina falta de visão, nem meus óculos com sua síndrome de abandono. Entre conversas e risos, que nos remetiam à infância e lembranças da adolescência, nenhum de nós conseguiu ler o "sub"rótulo da embalagem de um cosmético. Enquanto eu e as primas esticávamos os braços sem piedade, nossa tia, com duas décadas mais e um par de óculos bem assentados no rosto, informou o que deveríamos ter lido. Realmente, pior cego é aquele que não quer ver e, num ato de teimosia coletiva, testamos a leitura da bula de um remédio qualquer: ninguém com mais de 40 e sem óculos entendeu uma palavra - das pequenas. Alguém presente na sala levantou a teoria de que gente idosa é muito sugestionável com o alerta dos possíveis efeitos colateriais, aquela parte que diz que "pode ocorrer" isso ou aquilo, e por isso mesmo, as letras são tão pequenas; ou seja, são propositalmente miúdas para que os idosos não leiam mesmo. Entre gargalhadas gerais (de nervoso!), o único efeito colateral que eu realmente senti foi o de ter sido enquadrada na categoria "gente idosa".

Foi nessa altura que me ocorreu que Saramago bem que poderia ter se inspirado numa cena assim, banal, corriqueira e muito cômica, diga-se!, para escrever uma obra profunda e tocante como o Ensaio Sobre a Cegueira. Aliás, nossa tia verbalizou o nome do livro que deu visão ao filme, no exato momento em que pensei nele, o que foi uma sincronia e tanto - ou um sinal dos céus para que, pelo amor de Santa Luzia ou São Ceguinho, eu use meus óculos sem mais desculpas.

Na última semana, lendo (a uma certa distância e sem óculos) o jornal com suas notícias e estórias de Carnaval, me deparei com uma matéria sobre uma Rainha de Bateria que se sente melhor e mais confiante sambando no chão do que em cima de qualquer carro alegórico. Ela também não pode exercitar-se como gostaria por causa de uma lesão no joelho, embora tenha emagrecido 4 quilos e sinta-se em plena forma para defender sua Escola. Lá pelas tantas da reportagem, alguém viu uma celulite. É celulite mesmo? Sim, é celulite, afirmou seguramente o outro (que deve usar óculos). Também fiquei espantada, ora se não. Luma de Oliveira, em forma, com "uma" celulite aos 44 anos? Convenhamos! Mas o que eu queria saber mesmo e a reportagem esnobou é... Só falta mesmo é ela nem usar óculos! Francamente!

Eu só posso garantir, no adiantado da minha faixa etária - a única coisa que tenho em comum com a Rainha de Bateria -, que celulite a gente tira de letra. Já os ensaios sobre a cegueira... Esses dão samba o ano inteiro.

E por falar em ano, findo o carnaval, ele acaba de começar. Meu desejo é que todos enxerguemos bem, de perto, com braços longos porque, de longe, ainda não dá para reclamar.

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11 comentários:

Américo do Sul disse...

Cláudia... Mto bom! Eu descobri q precisava usar óculos aos 30 anos, assistindo o show 7 desejos de Alceu Valença. Era primeira vez q assistia da platéia, pois como fotógrafo de jornal, sempre ia a shows trabalhando. Naquele dia não tive as lentes corrigindo meu problema. Resumindo: no outro dia tive meu primeiro encontro com o oftalmologista. Dois dias depois, de posse dos óculos descobri o q era ver. Eu achava q longe não era mesmo pra se ver direito, por isso existia o binóculo. Pode? Fiz uma perigrinação a alguns lugares q já tinha ido na vida, para ver o q achava já tinha visto.

Ricardo Paes disse...

Claudinha querida,
Adoro tuas crônicas que, como sempre, "enxergam longe" e nos ajudam a olhar desde uma perspectiva muito especial - que, afinal, só esses seus lindos olhos engendram.
Mas preciso fazer um reparo, sobre o fato de que você nada deixa a dever a Lumas e outras Rainhas - afinal, tens ainda, como valor agregado a sua inteligência, humor, astral, sensibilidade e uma escrita maravilhosa, uma beleza que encanta a cada vez que a reencontro (da forma bissexta que me é peculiar, lamentavelmente).
Tenho certeza de que os óculos lhe ficarão bem, embora talvez escondam teus lindos olhos. Eu os tenho (infelizmente refiro-me aos óculos, não aos teus olhos) desde os quatro anos, e sei que podem ser um estorvo. Mas não será no teu caso, pois se já vês o mundo e o transcreves com tua literatura de forma tão nítida e perspicaz sem eles, imagino com o foco adicional das lentes externas!
Um beijo no teu coração neste recomeço oficial de ano e que possamos tomar mais café no Cafeína pertinho de sua casa, pra eu desfrutar um pouco mais de teu sorriso deslumbrante e da tua presença encantadora!

rudney disse...

Claudia, Adorei a crônica, é a mais pura realidade. Meu braço já encurtou bastante, mas só uso o óculos prá ler, no quarto, e de porta fechada.
As pessoas nos iludem dizendo que a idade tras sabedoria, confiança, amadurecimento, etc, mas em compensação tras estes tipos de coisas extramente desagradáveis, tudo despenca, o cabelo fica branco e pior, prá maioria do homens cai tudo. Não dá prá deixar de lado, a coisa mais "disgusting" que é encontrar, com o perdão da palavra, um pentelho brancccooooo !!! é o fim, é ladeira abaixo.
beijão, Rudney

Carlos Verdini Clare disse...

Uso óculos há algum tempo e nunca me incomodei muito com sua interferência no meu rosto, até porque existem muitos modelos bonitos e sofisticados. O que me incomoda, de fato, é ter que carregar a caixinha dos óculos pra cima e pra baixo, e de vez em quando usar um paninho para limpar as lentes - diferente das mulheres, os homens ODEIAM carregar a casa nas costas - e por esse desconforto também não uso meu "acessório" em tempo integral.
Mas o fato é que, apesar dos óculos e dos pentelhos brancos, aprendi na minha caminhada à velhice que sou muito mais interessante, hoje, do que qualquer garotão com 20 anos. Portanto, falo de peito aberto e seguro do meu enredo: Não troco meus 35 anos por nada!
Carlos Verdini Clare

C Letti disse...

Américo, claro que pode! O oftalmo que consultei me disse que atende gente que se espanta por enxergar tão bem fazendo o exame com as lentes de aumento. De todo modo, voltar aos lugares que já vimos pra ver melhor, é recomendável, mesmo que enxerguemos bem desde sempre. Nossos olhos, com ou sem óculos, descobrem coisas novas a cada visita. Bom te ver por aqui. Abração!

Ricardo querido, amigos assim como você, que me apresentou entre outras referências, a Ana C Cesar, são sempre suspeitos. Você usa óculos? Acredita que nunca me chamou atenção? Deve ser porque eles combinam perfeitamente com sua persona sempre curiosa e ativa. Em nosso próximo café, bissexto ou não, por favor, leve seus óculos pra apresentá-los aos meus. :) beijo grande!!

C Letti disse...

Rudnei, gargalhei! Tudo na vida tem seus dois lados, né? Vivência e maturidade de um lado, óculos e cabelos brancos de outro. Quando eu começar a arrancar os cabelos brancos e tiver que pintá-los, provavelmente vou escrever uma crônica também - e vou te chamar pra ser meu assessor. Se a gente não puder rir de nós mesmo, quem o faria com a mesma diversão? Beijo e saudade!

Carlos, também não gosto de carregar nada nas costas, não uso bolsa grande, aliás, e portanto, meu óculos é sem caixinha mesmo, ele não passeia muito, gosta de ficar em casa, mas quando sai, vai pendurado na gola da camiseta.
35 é plena juventude, rapaz! Espere os 40 e daí a gente conversa - até porque dizem as boas e as más línguas que a vida só começa a partir dai! Beijão!

Cristina "Mardoce" disse...

Pois é... Etapas inevitáveis de quem resolve viver por muito tempo. Será que é muito? Mas, a questão agora é outra, vamos lá : eu já estou numa fase posterior ao "braço curto" e ao advento dos óculos. Passei inconformada, como sou, por todo o processo, mas sabendo que aqueles óculos não seriam um apêndice meu por todas as horas... um dia eu encontraria solução melhor. Mesmo porque eles não combinam com minha distração crônica, pois eram costumeiramente abandonados e chorados justamente. Enfim, existem lentes! Socialmente interessantes, invisíveis e confortáveis!! Mas, como fazer se tenho que ver longe e perto? De perto já é o caos. Peraí... Dois olhos?? Duas opções dadas pela natureza! Desde então, tenho permitido a ambos os olhos verem, alternadamente, de perto e de longe. Uma lente diferente em cada olho. Um enxerga maravilhosamente lá longe, outro aqui pertinho. E eu, livre, leve e solta, mas com o apêndice de segurança na bolsa, para emergências. Só que aprendendo sempre. Já tive que ficar um filme inteiro com a lente de perto dentro da boca para não ressecar !! Nem tudo é perfeito...aliás, nada é perfeito entre nós humanos! Ainda bem !!!

Mardoce

C Letti disse...

Cris, muito criativa - e inteligente - a solução que você arrumou pra esse pequeno contratempo. Adorei! E a sua defesa ficou brilhante - você deveria escrever com mais frequência e socializar com a gente, claro! :)
beijo grande!

rchecco disse...

Claudia, às vezes não enxergar muito faz bem, pode parecer estranho, mas no final da piada que eu ouvi esta semana, você vai entender.

A Mulher (meia-idade) estava em frente ao espelho e falou para o marido:
- Nossa !!! marido como meus peitos estão caídos, minha pele está flácida, meus cabelos estão ficando branco, minha barriga está aparecendo, tenho estrias e celulite, que horror !!! Diga alguma coisa boa que eu tenho, por favor.
Ele disse:
- noosssaaa !!! como você exerga bem.

beijos

Monica disse...

Querida Vizinha !
Vamos pensar pelo lado positivo da coisa: às vezes precisamos ser "seletivos" em relação às coisas que queremos enxergar. Com (ou sem) os óculos, temos o livre arbítrio para ver (ou não) aquilo que, de fato, nos interessa ou nos dá alegrias. É só colocar (ou tirar) o aparato, esticar/encolher os braços e... viver !
Bj grande.
Mônica

C Letti disse...

Mônica, você fez poesia onde tinha uma boa veia irônica que foi a minha crônica. Eu adorei, diga-se! Mas, gostei mesmo foi de te ver por aqui.
beijo grande e volte sempre!