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A CRISE >> Ana Coutinho

Todo mundo fala tanto na crise, que eu me sinto um pouco constrangida de dizer que não a conheço. Ou, talvez, ela sempre tenha vivido comigo, a danada, e por isso não a estranho.

Perguntei para o meu marido da nossa crise. Ele insiste em dizer que nunca tivemos. Mas já tivemos, sim. Só eu, contabilizo duas. E sou especialista na mais grave dela, que carinhosamente chamo de crise da tosse.

Começou uma noite qualquer, uma noite normal, quando ele não conseguiu dormir: “estou com uma tossinha chata”, disse, levantando-se na madrugada.

Voltou em alguns minutos e eu achei que estivesse melhor, mas quando meus olhos já estavam fechados, lá vinha: “cof, cof, cof”. Eu, como uma boa esposa, sugeri um mel, me ofereci para fazer um chá, falei doce e calmamente com ele, esperando que adormecesse, mas não aconteceu. Durou horas, talvez a noite inteira, mas acabamos por adormecer, quase de manhã. Dia seguinte, fui logo perguntando:

– Ô, que tosse essa noite hein, amorzão?

– Pois é. Mas já passou, viu? Não tô com nada.

Ufa. Meus ombros até relaxaram, eu dormiria, enfim.

Porém, quando a noite chegou, qual foi a minha surpresa ao notar que o homem curado, são, inteiraço, voltou a tossir. E – pior – a tosse era ainda mais alta. Levantava, voltava, tossia, virava pra um lado, pra outro, tossia mais, enquanto eu enlouquecia, tentando meditar: “Dalai Lama, Dalai Lama, Dalai Lama”. Nada funcionou. Eu só tinha duas opções, bater na cabeça dele com o abajur, ou levantar. Escolhi a segunda. Ofereci chá, mel, massagem, até dinheiro eu ofereci pra ele, mas nada – nada resolvia. Foi uma noite inteira em claro. De dia, com olheiras, esbravejei: “Pô meu, assim não dá né, Lin!” Ele, resignado, disse que estava morto de cansaço, mas sentia a tosse curada. “Sei...”, resmunguei sem saber o que me esperava. Comprei um xarope, por via das dúvidas. A caixa prometia alívio imediato. Imediato é que não seria, porque eu só descansaria à noite. Acontece que, ainda naquela noite, ele tossiu. E o xarope que produzia alívio imediato quase foi lançado pela janela. Alívio imediato pro bolso do fabricante, né? Eu esbravejava enquanto ele tossia. A tortura continuou, noite após noite esse homem tossia, tossia, tossia. Eu não sabia mais o que fazer. Já tinha sido educada, carinhosa, sedutora, louca, já tinha gritado e saído do quarto. Houve uma noite, inclusive, que comecei a chorar. Ele tossia e eu chorava: “o que foi, amor?”, dizia entre um cof-cof e outro. “Naaaada”, eu respondia, entre lágrimas, torturada pela privação de sono e pensando que, meu Deus, as pessoas diziam que casamento era difícil, por que foi que eu não acreditei?! As estatísticas sempre haviam escancarado o número de divórcios e eu, no meio da madrugada, me via como mais um número, dos jornais. “Tivemos uma crise”, diria aos amigos. “Todos os casais tem crises, eu sei. Mas essa, essa foi muito grave”. Se perguntassem se foi traição ou tóxico, eu responderia, lamentando: “Quem dera....” foi muito pior.

Em alguma madrugada qualquer, fomos até farmácia e, em pânico, imploramos algum remédio que funcionasse. Eu sei que o certo era ir ao médico, mas a gente precisava de alívio IMEDIATO, entende? O farmacêutico nos entregou uma caixinha, e advertiu: “Esse remédio é muito forte, tem de ter cuidado”. Cuidado quem tinha que ter era o meu marido. Eu já havia pulado da hipótese do divórcio para a hipótese do assassinato, o que não ocorreu, graças ao remedinho maravilhoso. Foi a minha primeira noite de sono em semanas. Ele tomou o comprimidinho e, menos de uma hora depois, capotou. Fiquei tão impressionada que cheguei a checar se ele não tinha morrido, coitado. Será que assassinei, sem nem saber? Não, ufa... Era só o começo do fim da pior crise de todos os tempos. Essa, sim, não foi marolinha não...

Comentários

Cristiane disse…
Ana, rolei de rir. Muito boa sua cronica de hoje! Aqui em casa, ao contrário, quem já teve que passar por isso foi ele. Tenho um acesso de tosse anual, aproximadamente entre maio e junho, um inferno! Mas ele é tão gentil que não pensa em divórcio não, nem em me matar, fica fazendo chá, comprando xarope e mel, me mima mais que o normal, o coitado.

Há uns 3 anos fui ao médico depois de 1 mes da bendita tosse e ele me passou um remédio forte, assim como passaram para o seu marido. Por via das dúvidas guardei a bula, recorro sempre a ele nas crises e passa rapidinho, para o bem do casamento e das minhas noites de sono.

beijos
albir disse…
Ri muito, Ana.
Eu tenho umas crises de espirros, mas ninguém tem muita paciência comigo não. Acho que vou mudar pra tosse - as pessoas são mais solidárias.
Beijos
Adorei essa crise, Ana. E confesso que já fiquei pensando na outra, que você citou que tinha contabilizado. Quem sabe semana que vem... :)
Debora Bottcher disse…
Valha-me... Chamas isso de crise? Vais ver daqui uns anos o que vai te tirar o sono, a paz, o apetite, por meses!!! Pergunta pra sua mãe: nem vais lembrar dessa marolinha (marolinha, sim!)... :)))
Super beijo.

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