sexta-feira, 6 de março de 2009

BUKOWSKI >> Leonardo Marona

Você entendeu a inveja, você diagnosticou o ódio, misturou a visão da criança com os becos de rinhas e duelos tomados pelo álcool. Você deu abrigo intelectual a uma quantidade exorbitante de farsantes, canastrões da pior espécie, com grossos cachecóis em pleno verão, namorando mulheres magras e com bafo. Eles batiam à sua porta, eu sei. Atrás de vida. Atrás de uma resposta. Não havia resposta, eles não sabiam. Você chamou a vida para dançar, você apanhou feio e nunca fez nada realmente grandioso. É por isso que você entende os homens, toda a enorme tragédia que envolve a nossa pequeneza, que se resume a muito intestino e algum coração. Muita coisa tem sido falada sobre você, seu velho. Mas tenho a sensação de que nada foi realmente falado. Você mostrou a outra face da moeda, não a face mitológica, mas a menor, a literatura de bolso, a vida em pele gasta. Por causa de você ainda continuamos, uns poucos, vendo alguma beleza na selvageria diária, algo de cotidiano em calçar as botas e partir para a guerra. Você carregou nas costas a frustração de toda uma geração engessada de acadêmicos que desempenhavam pequenos serviços com nomes complicados. Você foi o primeiro carteiro da América. A face escura de Walt Whitman. Meus contemporâneos têm atribuído ao trabalho de Charles Bukowski uma certa imaturidade juvenil, e tornou-se quase um crime evocar sua figura numa mesa de boteco. Sinto falta de poder dizer o quanto existe de verdade em seu trabalho, não se pode mais dizer isso em público, veja bem o que você se tornou. É a sina dos gênios serem regurgitados por uma sociedade hostil. Pelo menos fica impressa essa ternura destrutiva, esse lirismo violento da vida em rotação. E agora ela é de vocês, ou de quem quiser.

“a poem is a city” (Charles Bukowski)
a poem is a city filled with streets and sewers
filled with saints, heroes, beggars, madmen,
filled wit banality and booze,
filled with rain and thunder and periods of
drought, a poem is a city at war,
a poem is a city asking a clock why,
a poem is a city burning,
a poem is a city under gunsits bar
bershops filled with cynical drunks,
a poem is a city where God rides naked
through the streets like Lady Godiva,
where dogs bark at night, and chase away
the flag; a poem is a city of poets,
most of them quite similar
and envious and bitter...
a poem is a city now,
50 miles from nowhere,
9:09 in the morning,
the taste of liquor and cigarettes,
no police, no lovers, walking the streets,
this poem, this city, closing doors,
barricaded, almost empty,
mournful without tears, aging without pity,
the hardrock mountains,
the ocean like a lavender flame,
a moon destitute of greatness,
a small music from broken windows...
a poem is a city, a poem is a nation,
a poem is the world...
and now I stick this under glass
for the mad editor’s scrutiny,
and night is elsewhere
and faint gray ladies stand in line,
dog follows dog to estuary,
the trumpets bring on gallows
as small men rant at things
they cannot do.

*** tradução Leo Marona ***
“um poema é uma cidade”
um poema é uma cidade cheia de ruas e esgotos
cheia de santos, heróis, pedintes, loucos,
cheia de banalidade e bebedeira,
cheia de chuva e trovão e períodos de seca,
um poema é uma cidade em guerra,
um poema é uma cidade perguntando ao relógio por quê,
um poema é uma cidade em chamas,
um poema é uma cidade rendida por armas
suas barbearias cheias de bêbados cínicos,
um poema é uma cidade onde Deus anda pelado
pelas ruas como Lady Godiva,
onde cães latem à noite e perseguem a bandeira;
um poema é uma cidade de poetas,
quase todos um tanto semelhantes
e invejosos e amargos...
um poema é uma cidade agora,
50 milhas de lugar nenhum,
9:09 da manhã,
o gosto de bebida e de cigarros,
sem polícia, sem amantes, andar pelas ruas,
este poema, esta cidade, as portas fechadas,
barricadas, quase vazia,
desolada sem lágrimas, envelhecendo sem pena,
as montanhas rochosas,
o oceano como chama de lavanda,
uma lua destituída de grandeza,
a pequena música que vem das janelas quebradas...
um poema é uma cidade, um poema é uma nação,
um poema é o mundo...
e agora eu enfio isso debaixo do copo
para o exame detalhado do editor maluco,
e a noite está noutro lugar
e débeis damas cinzentas estão na fila,
cão segue cão até o estuário,
as trombetas trazem a forca
enquanto homens pequenos se gabam de coisas
que não podem fazer.



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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, que sua declaração de amor desperte o desejo de ler Bukowski em quem ainda não o leu.

leonardo marona disse...

edu, vc tem que ver os primeiros poemas desse cara. a tradução mata quase tudo, mas eles no original são vida em estado bruto, borbulhante.

aquele abraço do leo.

Dolores... disse...

Não importa quem é você.
Escreve bem.
Muito bem, eu diria!

Anônimo disse...

Porra cara bom esse texto q vc fez, acho q essa nova geração que esta vindo por ai anda muito crua, muito virgem ainda, bukowski hoje em dia soa como desconhecido nesses ouvidos...

Tomara q um gênio como esse não se perca como tantos outros já foram esquecidos com o passar do tempo...