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CALÚNIA >> Whisner Fraga

Não sou pessimista. Para mim, pessimista é aquele sujeito que, ao pressupor que tudo fracassará, sofre prematuramente. Antes, avalio a situação, as pessoas, as variáveis, para então me preparar para o possível desfecho. O importante, acredito, é alcançar a serenidade diante do inevitável. Devemos nos portar com sabedoria diante da felicidade e da desgraça. Assim, depois de muito refletir durante anos, cheguei à conclusão de que não existe elogio ou crítica sinceros. Analisem meus argumentos e não me tomem por pessimista.

É apenas uma advertência: não dê valor ao que dizem sobre o que você faz ou sobre o que você é, pois não existe ser-humano capaz de se livrar daquilo a que chamam de “interesse”. É da nossa natureza misturar estações. Desta forma, não fique tão contente se alguém enaltece alguma característica sua. Olha, você está linda hoje. Puxa, nunca conheci ninguém mais inteligente do que você. Que esperta, ninguém consegue enganar você. Que talentoso! E assim por diante. O que há por trás desses enaltecimentos? Um pouquinho de honestidade e muito de interesse.

O que pode haver de armadilha em tantas frases banais? Muito. Se dizemos que alguém é lindo, queremos algum tipo de vantagem: do inocente puxar o saco até um sexo casual. Há muito, mas muito mesmo nos bastidores de um elogio e basta um cursinho rápido de análise do discurso para sacar tal obviedade. Assim, por que dar crédito a qualquer tipo de aprovação? É bom que você aprenda, caro leitor, que só existe uma opinião que interessa a você nesse mundo: a sua própria. Não veja isso como apologia ao egoísmo, mas o contrário.

As críticas, por atingirem diretamente nossa vaidade, são mais complicadas. Mas também não nos dizem nada. Geralmente são motivadas pela inveja. Quando não, significa que o autor está se pautando por uma seriedade que não leva a lugar nenhum. De que adianta alguém dizer que você escreve mal? Que você cheira mal? Que você não sabe conversar, que seu beijo é horrível, que você é egocêntrica? Tais frases são de uma inutilidade aterradora. Só uma pessoa pode dizer a verdade sobre você: você mesmo.

Mas o caminho até essa verdade é sinuoso e por isso as pessoas costumam dar tanta importância ao que os outros dizem. É muito difícil um ser-humano se enxergar sem o filtro da própria frivolidade. A mais casta presunção do homem mais vil da Terra ainda é maior do que todas as forças humanas somadas. Assim, torna-se óbvio que não há utilidade alguma em se atormentar ou se regozijar com uma opinião alheia. Ninguém nunca encontrou sabedoria na opinião de quem quer que fosse.

Não sou pessimista. Acredito cegamente nos papos de final de noite em botecos precários. Acredito na ínfima parte do pensamento humano que tem origem na honestidade. Acredito no diálogo como uma perda de tempo necessária. Acredito na potência redentora da beleza, da arte e do agnosticismo. Acredito no poder civilizatório do vinho. O resto é calúnia e difamação.

Comentários

Anônimo disse…
Não há nada que o autoconhecimento não resolva ao lidar com situações como essas.
raquelescritora@blogspot.com disse…
Whisner, você está impagável como cronista. Adorei!
whisner disse…
Obrigado pela leitura, Rosimeira e Raquel. Abraços!

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