terça-feira, 2 de setembro de 2014

VIVENDO, ENSINANDO E APRENDENDO >> Clara Braga

Pela primeira vez em minha ainda curtíssima carreira como professora, tive que aplicar provas de outras disciplinas e ficar “cuidando” da turma enquanto faziam a prova. A situação me levou para um passeio na minha época de escola e me fez dar muitas risadas internas enquanto curtia a nostalgia.

É muito nítido quando chega aquele momento em que todo mundo já respondeu as questões que sabia e agora está apenas esperando pela luz divina! Cada um espera do jeito que pode, mas a maneira clássica é olhando para o teto, como se estivesse de fato conversando com alguém lá em cima e pedindo uma forcinha. Os mais inquietos e ansiosos esperam um pouco, se o cara lá de cima não aparece eles fazem aquela cara de que já deram tudo de si e saem na esperança de terem, pelo menos, acertado as questões que responderam. Os que têm mais fé esperam até o último momento. Podem estar na mesma questão há horas, mas só saem da sala quando o sinal bate. A prova não mudou nessa uma hora, nenhuma questão foi respondida com a ajuda divina, mas para esses fica a consciência limpa de que tentaram até o último minuto, literalmente. Acho até que isso devia ser levado em consideração na hora de lançar as notas.

Mas se tem coisas que não mudaram muito com o passar dos anos são a cara de desespero de um aluno que não consegue resolver uma questão de física e a forma como as pessoas pedem cola. Não tem para onde correr, toda turma tem que ter os famosos caras de pau. Os caras de pau são aqueles que olham mais para você do que para a prova, na esperança de que você vá dar aquela vacilada para ele pegar a resposta com o colega do lado. Não estudam nada, se garantem no conhecimento do vizinho e juram que professor nunca foi aluno e nunca passou pela mesma situação. Sabem de nada, inocentes!

Mas a verdade é que eu acabo amolecendo e, às vezes, repito, às vezes, finjo que não estou vendo. Me ponho no lugar desses alunos e lembro do sentimento que tinha, de que minha vida dependia daquilo. Mal sabia eu que aquilo não era nada perto do todo… aliás… se tem algo que essa fase da vida me ensinou foi que o que tenho hoje ainda não é nada perto do todo. E tenho a sensação de que com o passar dos anos, vou cada dia mais ter a impressão de que ainda me falta muita coisa para viver e aprender. Hoje é sempre uma base, um aprendizado para amanhã. É essa vontade de querer saber mais que faz com que a gente siga em frente. E hoje entendo quando os professores dizem que aprendem muito ensinando. Nesse dia de prova de física, tive uma lição maravilhosa que pretendo passar para todos os meus alunos de agora em diante.

Foi justo nesse momento em que os alunos já não viam mais uma luz no fim do túnel, tentavam de qualquer jeito conseguir uma resposta, nem que fosse olhando para a prova do colega que também não sabia a resposta. Eu, vendo a agonia deles, estava quase passando uma cola qualquer, já que eu também não sabia a resposta, só para acabar com aquela situação. Nesse momento, o professor de física entra na sala e, antes de ir tirar dúvida por dúvida, fala: gente, vocês tem mania de querer saber tudo, a gente não tem que saber de tudo!

Talvez esses alunos ainda demorem muito para entender a força dessa frase, mas nesse exato momento, eu, que venho me cobrando muito para estudar e preparar aulas maravilhosas para sempre sanar todas as dúvidas de todos os alunos, senti um peso sendo tirado das minhas costas e um alívio tomando conta de mim: eu não preciso saber de tudo!

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Um comentário:

Anônimo disse...

a antiga "cola", presente em todas as instituições de ensino.. e bastante evidente que muitos dos que a usam, não tem uma sã consciência do que se envolve a matéria ali estudada...permitem-se levarem pela mente dos demais alunos, que em sua maioria também não estudaram religiosamente para obter um minimo conhecimento obtido no recinto escolar..Ves por outra, alunos eximios também colam, com uma utopica necessidade-subjetivamente
Plausiveis tuas cronicas.. . (Kanokosou)