sábado, 20 de setembro de 2014

A INVASÃO DOS COCURUTOS CALVOS >> Sergio Geia

O cocuruto calvo, amigo, assim como os alienígenas do Independence Day, o smartphone, o tomate-cereja, o Vanish, vem invadindo a vida terrena sem dó nem piedade e tomando conta de tudo. Tal fato eu pude perceber outro dia sentado na última fileira num seminário em Campinas.

Nesses eventos corporativos, sentar na última fileira expressa de modo significativo a velha máxima cristã de que os “últimos serão os primeiros”: serão os primeiros a sair, os primeiros a comer a coxinha do coffee break, a ir ao banheiro, a pegar o copinho d’água, a rir da piada do conferencista, cujo personagem foi nada mais nada menos que seu colega lá da frente, e que nessas alturas já está mais vermelho que dedo-de-moça. Enfim, permite-lhe também uma visão privilegiada de todo o ambiente: quem chega, quem sai, quem está, quem não está, e pequenos detalhes imperceptíveis ao olho humano médio, mas que chamam a atenção de qualquer cronista que se preze: no caso, os cocurutos calvos.

As ilhas brilhantes estavam todas lá, reluzindo em cabeças masculinas mais que espada dourada em dias de sol. Eram dezenas, talvez centenas. Havia ilhas de todo gênero, espécies e tamanhos: ilhas brancas em oceanos brancos, ilhas brancas em oceanos pretos, ilhas em rios no tempo da seca, em lagos nada caudalosos, em lagoas chinfrins, em pequenas cascatas de água rasa.

É triste ver o que nos espera. Claro! Você acha que tá livre disso? A menos que seu pai seja um privilegiado no assunto, que não sofra a falta dos folículos pilosos, você também tá no time, mermão! E ver que o homem, ah!, esse homem, tão sofisticado para certas coisas, tão capaz de criações fantásticas e inusitadas, capaz de inventar maravilhas como os dentes de um garfo, o anticoncepcional que libertou a mulherada, o Viagra, os óculos, a escova de dente, o chuveiro, a agulha, o cortador de unhas, o pente, o canudinho, a parafernália eletrônica toda, capaz de criar um mundo chamado internet, capaz de criar uma ovelha, um órgão, uma máquina que voa, não é capaz de inventar uma merreca de um comprimidinho para dar cabo dessa esfera cada vez mais pujante e irritante que nasce no cocuruto da rapaziada.

Ela começa fraquinha, desnutrida, você nem percebe. Alguém comenta e você diz: “Imagina, eu?”. De repente, você nota que tem mesmo alguma coisa lá, que fulana estava certa, uma pequena falhazinha. E essa pequena falhazinha, um feijão, da noite pro dia vira uma maçã, parece que o homem tá lá, desmatando tudo pra erguer um prédio. A coisa anda rápida. Sem menos você perceber, ela já está existe, vivinha da silva, crescendo na mesma velocidade em que se engorda uma galinha, se alimentando de todo o seu viço e seus folículos, fazendo aumentar sua desgraça na mesma proporção em que ela aumenta de tamanho. Uma fenda aberta no matagal do que um dia foi uma floresta amazônica, mas que agora está mais pra serra pelada.

A outra vantagem de sentar na última fileira, amigo, que esqueci de lhe contar, é que seus colegas não verão a sua ilha. Mas não posso dizer o mesmo quando você está no elevador, com esses espelhos em todas as direções. Cruz credo!



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3 comentários:

Brasilino Neto disse...

Sérgio muito legal a visão deste texto, que faz a leitura fluir e com o interesse em ver seu desfecho.

Dall disse...

Pois é Sergio, por este motivo o "boné" é meu companheiro de muito tempo. rsrsrs

sergio geia disse...

Dall, taí um mercado pra se explorar: "bonés". Cabeças não vão faltar rsrsrs. Valeu, Brasilino!!!