quarta-feira, 24 de setembro de 2014

TALVEZ >> Carla Dias >>

Talvez não.

Talvez você não consiga realizar aquele projeto de vida, ao qual dedicou anos de sua vida, muita paciência e, de quebra, suas economias. Tampouco conquiste aquele espaço pelo qual lutou tanto, passando horas de sua vida debruçado em ideias que o levassem até lá, àquele lugar que você acredita piamente que lhe pertença. Pode até ser que, depois de horas na fila, você sobre e não consiga comprar aquele algo com o qual sonhou durante meses, desde que começou a campanha publicitária de lançamento do tal. Mesmo você já se vendo assim, dono dele.

Provavelmente, você não conseguirá conhecer pessoalmente aquele músico que adora de um jeito... E que imaginou tocando sua campainha, entrando na sua sala, sentando-se e servindo-se da sua cerveja, enquanto lhe conta, com a simplicidade que, você imagina, pertença a ele, o que é fazer música pra lá de boa em um mundo onde a mediocridade é celebrada com tanto aprazimento. Pode ser que a lâmpada daquele abajur que você passou o dia sonhando que iluminaria a sala onde você descansaria a cabeça e o corpo esteja queimada. E que em vez de paz e sossego, você ganhe um pequeno desapontamento e uma ida obrigatória ao supermercado.

Talvez aquela roupa não lhe caiba mais do jeito que lhe coube quando, você acredita, era mais feliz que agora. E que para você, roupa que não cabe mais seja ferramenta perfeita para cimentar a certeza de que mudar é sempre para pior. Nesse estado de espírito, pode ser que você se sente em frente à televisão, esperando assistir a um filme de ação, daqueles de fazer o bandido ser mais querido que o mocinho, que a hora é de extravasar a própria incompetência em viver a vida. Mas aí que, naquele dom de zapear que lhe cabe, você encontra aquele filme que assistiu quando aquela roupa ainda lhe cabia, respira fundo e o assiste, até o fim, fazendo de conta, para si mesmo, que o passado não lhe dói.

De repente, você ter passado a vida com a cara nos livros, pesquisando, esmiuçando o que a ciência oferece, não lhe torne apto a ser a pessoa a descobrir a cura para a doença que acomete alguém que você ama. E, ainda que, durante essa jornada suas descobertas beneficiem a tantos outros, talvez isso não lhe conforte como você esperava que acontecesse.

Pode ser que você nunca conheça a sua pessoa, aquela que vem imaginando, desde que descobriu o amor romântico. Aquela à qual você dedicou os pensamentos mais ternos, com quem se viu vivendo a melhor parte da sua existência, mesmo ela sendo somente habitante de um imaginário que tem por certo que ela chegará a tempo de, junto com você, construir uma história, cultivar intimidade, iniciar família.

Eventualmente, você compreenderá que não é a pessoa capaz de decidir tudo como acreditava ser. Não porque não lutou por isso, não se dedicou a se tornar a pessoa que conduz a sua biografia. Mas simplesmente porque nem sempre o caminho que escolhemos é o mesmo que a vida decide que devemos trilhar. Não à toa encontramos pessoas que desempenham papéis que jamais escolheriam.

E se engana quem pensa que essa impossibilidade de coordenar, de comandar tudo é ruim. Como no jazz, a nossa existência depende de improvisos. Como seres humanos, quase nunca estamos abertos a eles, que adoramos uma rede de proteção. Mas a verdade é que nem sempre as nossas escolhas são as melhores. No susto, muitos de nós aprendemos a felicidade de sermos talentosos em algo que jamais poderíamos sequer imaginar sermos capazes de realizar, e tão bem. Esse labirinto das vontades da vida, às vezes nos mostra que a coisa não é tão importante assim, que destino muda, rotas estão aí para serem experimentadas, é possível sim amar uma, duas, três vezes, e se viver com alguém sem ter filhos, ou ter um time de futebol deles.

O que não compreendemos facilmente é que, quando decidimos como as coisas serão na nossa vida, é que o tempo nos molda. Cada vivência representa um passo adiante na nossa capacidade de nos permitirmos saborear diferenças e apreciar semelhantes. Andamos tão ocupados em nos tornar que esquecemos que somos.

Talvez sim.

Talvez você se torne a pessoa que sonhou... Ontem à noite.


Imagem: Portrait de l’éditeur Eugène Figuière © Albert Gleizes



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2 comentários:

Ana Campanha disse...

=) Por via das dúvidas, continuemos tentando atingir os nossos sonhos. Ótimo texto!

Carla Dias disse...

Ana... Que a sua tentativa dê em muitos sonhos realizados. Beijo.