quarta-feira, 17 de setembro de 2014

TRANSMUTAÇÃO >> Carla Dias >>


Foi uma criança inquieta, daquelas que cutucam chão de terra acreditando que chegará ao outro lado do mundo, e quando descobrem que não é bem assim, cutucam mais um pouco para ter certeza, que ingresso para o outro lado do mundo não anda dando sopa por aí.

Sua inquietude não vem somente de uma infância de liberdade plena. Até porque não tardou para que ele descobrisse que a tal liberdade plena, na verdade, era abandono de incapaz. É que sempre foi assim mesmo, moleque de olhar baixo, desviando de grupos, ficando sozinho com suas divagações, desacelerando na corrida do dia a dia. O pai, mais de muitas vezes, chamou-lhe de inválido, o que, mais tarde, ele compreendeu que uma palavra aplicada de forma equivocada pode virar o jogo da vida. O pai só queria mesmo era chamá-lo preguiçoso, que nunca foi bom nas performances de semáforo. Então, aborrecia-se fácil, achava um jeito de sumir da avenida e das vistas.

Aliás, ele nunca teve a vista boa. Enxergava ralinho do olho esquerdo, por conta de um acidente caseiro, que nem vem ao caso, que ele era tão pequeno quando aconteceu que prefere o esquecimento. Foi essa visão, que uns tantos diziam ser limitada, que lhe ensinou os olhar atento que, posteriormente, inspirou-lhe o olhar atencioso.

A mãe era uma dona grandalhona, de voz miúda, que contava histórias horríveis, das violentas, mas com um tom calmo, um ritmo arrastado, o que fazia com que as pessoas a escutassem como se estivessem assistindo à novela, e não escutando detalhes sobre um fato. Aliás, não havia mulher no bairro que soubesse mais que a mãe dele, a detentora dos detalhes. Bem mais tarde, ele ficou sabendo que ela também era a autora da maioria dos atos vis que apimentavam suas histórias.

A curiosidade o levou à escola. Não a curiosidade sobre o aprendizado, mas sobre se a sopa servida de merenda tinha o sabor tão bom quanto o cheiro. Não tinha, mas de qualquer forma, era muito mais agradável passar o tempo com a cara na lousa e no caderno do de cara com seu pai, que ele veio saber, não tardou, era a matéria-prima do bullying.

Não fez amigos na escola. Fez uma amiga, menininha esquisita, que vivia resmungando que a vida era patética. Anos depois, ele compreendeu, assim, com a clareza que não falta nem mesmo a quem não enxerga como se deve, que tudo o que ela sentia era solidão. Não que a vida não fosse patética - e não foi preciso que ele esperasse muito para engolir esse sapo -, mas não era sempre. Não era uma vida essencialmente patética, mas como ele gostava de dizer: patética quando lhe cabe, pra ver se nos ensina a caber onde devemos.

Sua inquietude se tornou pontual, depois que foi viver sob a custódia do governo. Ensinaram-lhe muito, que, eventualmente, ele aceitou que era pouco para quem tinha o direito à felicidade. Não é isso que os cartões comemorativos dizem? E as cartas de amor, e os pais em potencial, que não lhe escolhem porque você não tem a cor, o corpo ou o cabelo certo? Os criminosos em plena captação de parceiros, os fabricantes de remédios, os amantes eventuais, os vendedores ambulantes?

Inquietude, para ele, é palavrinha curiosa. Talvez sua fama de melancólico, de pessoa que não sabe gargalhar, de quem perde um tempo valioso andando cabisbaixo, como se não fosse autorizado a cruzar olhares, não esteja de acordo com o que, certamente, ele acabaria por descobrir.

Ele chegou do outro lado do mundo. Cutucando o chão de terra, descobriu a paixão pela geografia. Com a sopa quente e perfumada, alimentou um futuro. Com o olho que não cabe no labirinto da perfeição, enxergou além. No abandono, nasceu companheiro daquela que, em nenhum momento, questionou a sua capacidade de ser feliz. E mais, ele viria a perceber, já adulto, alguém que nunca o confinou na solidão.

Imagem: La condition humaine © René Magritte

carladias.com

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