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RODOLFO E A CRISE DOS 40 - PARTE II>> Zoraya Cesar


Coerente com seu lema “um encontro, um motel”, Rodolfo saiu do restaurante direto para o dito local, ansioso pela noitada que depois contaria, em detalhes, para os amigos.

Caroline Valérie também não deixou por menos. Deixou, isso sim, Rodolfo ver, ao vivo e em cores, o tamanho da enrascada. 

Tarde demais, ele descobriu o que todos – o Amigo Leitor, inclusive – desconfiavam: Caroline Valérie era um travesti. E que não aceitou ser rejeitada, nua e loura, só por conta daquele nada pequeno detalhe. Ajoelhou, tem de rezar, disse, enfezada, as mãos na cintura.

Fugir, nem pensar; lutar, muito menos: franzino do jeito que Deus lhe fizera, Rodolfo ia apanhar como um cão sarnento. Só havia uma saída: negociar. Não houve a consumação do ato libidinoso, mas ele a tratou como uma princesa a noite inteira. E mais não digo, pois esse, repito, é um blog família.

O episódio cairia no olvido se, no dia seguinte, Caroline Valérie não esbarrasse em dois dos amigos que Rodolfo lhe apresentara na noite anterior. Educada e fina, não entrou em detalhes, mas fez pródigos elogios a “Rodolfinho”, um gentleman, que fez da sua noite uma delícia inesquecível.

A história se espalhou mais rápido que um viral na internet. Rodolfo e suas histórias estavam virando lenda urbana. 

TERCEIRO ENCONTRO – Persistiu no site de relacionamentos. A louraça Sharonstony começou explicando que seu nome era uma homenagem à “ídola” (sic) de sua mãe, fã da atriz de Atração Fatal. Tudo bem, pensou Rodolfo, afinal, ela era a mais bonita das três. Portanto, tudo bem que usasse uma legging de lycra azul brilhante e uma blusa com estampa do Luan Santana. Tudo bem que era falsa loura. Tudo bem que mascasse chiclete com a boca aberta.

Importante era que Sharonstony beijava muito bem, enroscava-se em Rodolfo como uma cobra no pau – sem trocadilhos, por favor - e ronronava em seu ouvido. Ele ficou doido. Tão doido que resolveu ir ao bar, mostrá-la aos amigos, queria vê-los babando, invejosos. Há muitos Rodolfos no mundo, que não aprendem. 

O que Sharonstony tinha de gostosíssima tinha também de escandalosa. Falava alto. Tudo o que dizia podia ser escutado a cinco mesas de distância. Tratou o garçom de “meu filho, cadê essa comida? Tão matando o boi agora, é?” Comeu com a boca aberta. Um dos amigos a filmou lambendo os dedos e limpando-os na mesa. Dessa vez não haveria misericórdia para Rodolfo.

Que continuava doido, sim, mas de vergonha. 

A noitada foi horrorosa, Sharonstony falou o tempo todo sobre novelas, BBB, cantores sertanejos, fofocas de celebridades. E não parou de tirar selfies no motel, nas mais variadas poses. Rodolfo não conseguiu fazer nada. Voltou pra casa, cabisbaixo, era o único homem na Terra que não tinha histórias legais pra contar, que não tinha uma vida interessante, lamentava-se. 

QUARTO ENCONTRO – Na verdade, não foi bem um encontro, mas uma despedida de solteiro. Muita bebida, muita revista de mulher pelada, alguns filmes. Parecia mais festa de adolescente quando os pais não estão em casa. Até boneca inflável teve.

Boneca inflável. Não se sabe, até agora, o que deu na cabeça já cheia de manguaça de Rodolfo para experimentar a boneca. Nem, como, diabos, ele conseguiu prender seu membro viril na boca do artefato. A sorte é que havia um médico presente, e conseguiram libertá-lo sem outra consequência que não uma distensão na virilha, forte o suficiente para impedi-lo de vocês-sabem-o-quê por algum tempo.

Doloroso mesmo foi ver que o pessoal gravou toda a cena do salvamento e postou no you tube, instagram, facebook... Porque, dessa vez, realmente, não houve piedade. Aquilo fora engraçado demais. Amigos, amigos, safadezas à parte. 

CONCLUSÃO - Aqueles eram os piores 40 anos de sua vida. Seria conhecido como Rodolfo, o idiota, jamais como Rodolfo, o invejado. Era a derrota, agora eternizada nas redes sociais. 

Encontrou Antoninha, alguns dias depois. Não ficara bonita, que milagres não existem, mas era outra mulher. Arrumada, usava lentes de contato e cortara os cabelos. Que continuavam castanhos. Antoninha era mulher de personalidade, não os pintaria só porque o cretino do ex-noivo tinha fixação por louras.

Ele elogiou sua aparência e insinuou que gostaria de reatar o namoro. Ela riu. Não tinha interesse algum em voltar para um relacionamento falido, no qual não era valorizada. Despediu-se com um beijinho no ombro, tchau, a gente se vê.

Rodolfo resolveu que procuraria um psicólogo. Aquela crise dos 40 mal começara e já estava insuportável. 

Chegou o final de semana e, com ele, a solidão. Não tinha coragem de encontrar os amigos e desistiu do site de relacionamentos. Pensou nas últimas mulheres que conhecera. Antoninha o desprezara. Uma o roubara e o deixara algemado à cama. A vulgaridade da outra lhe dava vergonha só de lembrar. E ainda teve aquela que nem podia ser considerada mulher de verdade. Mas era educada, bonita e gentil. 

- Alô. Caroline Valérie? É o Rodolfo, lembra de mim? Tá fazendo alguma coisa? Quer sair?

Do outro lado da linha, gritinhos histéricos de alegria.

Comentários

albir silva disse…
Você não ia mesmo facilitar a vida do Rodolfo, né Zoraya? Tomara que pelo menos ele esteja feliz com Caroline.
Marion disse…
a tal da ex-namorada é que se deu bem. cara doido. muito engraçado o texto.
Anônimo disse…
Esse Rodolfo tem o dedo podre, imagina aos 50 anos o que não vai encontrar ou vai ter casado com a carolina
Carlos
Erica disse…
Ai, Zoraya, você é má... fiquei até com pena do Rodolfo... só um tropeço atrás do outro... mas no final de repente ele se achou né? Vai ver que era esse o problema dele.. estava meio perdido na vida e a Caroline fez com que ele se achasse rs
Ana Luzia disse…
pois é, deus escreve certo por linhas tortas... a felicidade, às vezes, está onde menos se espera...
Claudia Dias disse…
Gostei do final, embora ainda esteja em dúvida se a pobre Caroline saiba em que enrascada está se metendo... Rodolfo não vale nada! kkkkk
Liane Leobons disse…
O mundo da volta. Homem infantil, bobo tinha que aprender a lição kkkkkkk. Que bom que valorizou o que tinha. Isso é mais normal do que pensamos.

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