segunda-feira, 23 de março de 2015

A BOIA E O CAPITÃO >> Albir José Inácio da Silva

Foi logo depois da guerra que a Light estava fichando – hoje em dia se diz contratando - e só precisava disposição pra trabalhar.  De longe vinha gente que abandonava a dureza do eito nas fazendas em busca de dureza com carteira assinada e boia. E salário-mínimo - que era o mais novo sonho dos boias-frias. A minha sorte foi que naquele tempo menino podia trabalhar.

- Tem que ser menino esperto, ter força e disposição - dizia o funcionário do recrutamento, que falava isso sem olhar pra pessoa e ficou decepcionado quando viu meus quarenta e poucos quilos. Mas consertou: - Às vezes disposição é melhor que força, né garoto? – fez um quase sorriso, e eu ganhei a vaga porque todo mundo ganhava.

Quem ganhou vaga também, com muito mais justiça porque era grande como um touro e trabalhava por três, foi o Zé Gamela.   Gamela vinha das profundezas de Minas e recebeu esse nome ainda criança porque o que tinha de força, tinha de fome e comia na gamela - uma espécie de bacia.

Quando chegamos no canteiro, já lá havia um  encarregado de nome Capitão. Dizem que virou Capitão de tanto o povo repetir, mas começou como capetão, capeta grande, porque era um capataz ruim que nem o diabo. Capitão ele gostava, dizia que era reconhecimento por sua importância e autoridade.

Capitão era um mulato que se embranquecia e não gostava de preto. Era encarregado, mas não era de serviço não, que entendia nada de usina, nem de pedra, nem de dinamite. Era um chefe de disciplina, de segurança, sei lá mais de quê, só sei que implicava com tudo. Andava com um rebenque na mão, que até os patrões gringos estranharam, mas ele explicou que não era chicote não, era um bastão pra bater nos galões de piche e saber quando estavam vazios.

Era uma segunda-feira e Zé Gamela sentia muita fome, tinha comido só uma sopa de banana verde no domingo. Mesmo assim trabalhou duro toda a manhã. Logo da primeira vez pediu pra encher mais o prato e saiu pingando feijão.  De cara feia, o Capitão provocou:

- Parece bicho pra comer!

Zé Gamela não ligou. Comia muito mesmo, e estava feliz com o prato transbordando. Sorriu pro Capitão e foi comer. O Capitão não gostou do sorriso. Não gostava da cor nem do jeito de Gamela.

Zé Gamela entrou na fila pra repetir a bóia com o pedaço de carne espetado no garfo. A gente podia entrar na fila quantas vezes quisesse, mas a carne era só uma, servida na primeira vez. No início a turma devolvia o prato com a carne pra receber mais arroz e feijão. Mas a comunicação era ruim, os caras do rancho não falavam a nossa língua e acabavam raspando o prato no lixo antes de colocar mais comida. A esperteza dos caboclos logo inventou esse expediente: ficar com a carne no garfo enquanto era servido.

Estava o Gamela sorridente com a carne no garfo e o prato estendido, quando Capitão passou por trás dele. Com o bastão bateu no garfo de baixo pra cima e o naco subiu dois metros, quicou nas tábuas do chão e deslizou pela terra. Gamela ainda correu até a carne, mas ela tinha uma lama de gordura e terra preta, e ele jogou de volta no chão.

Sentou no banco com o prato na mão, mas não conseguiu comer. Tinha um nó na garganta e os olhos pregados no chão. Seu Chico foi até lá, achando que ele não queria comer sem carne:

- Toma, Gamela, eu já tô cheio.

- Quero não, Seu Chico, perdi a fome.

Seu Chico voltou pro meu lado no banco de madeira:

- Sabe, menino, eu vivo há muito tempo, mas não consigo entendê as pessoa.


Se o Seu Chico, que era velho e viajado, não entendia as pessoas, imagina eu que era só um moleque.


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Um comentário:

Zoraya disse...

Que triste, Albir! TEnho de tomar cuidado com alguns textos seus, eles mexem muito comigo. Bjs