quarta-feira, 5 de maio de 2010

SENHA 456 >> Carla Dias >>


Fui ao cartório eleitoral fazer a transferência de endereço do meu título e, claro, como qualquer pessoa que tem o mau hábito de deixar tudo para a última hora, amarguei muitos números antes de a minha senha aparecer no painel eletrônico.

Então que ouvi conversa alheia, porque era um lugar bem pequeno, e fiquei indignada mesmo com a fila preferencial, que andava mais devagar do que a sem preferência. Fora isso, o meu espírito acompanhava o que uma mulher bradou, depois da reclamação de um senhor que foi embora muito bravo com a demora no atendimento:

- Não tem nada que reclamar! Espera para fazer tudo na última hora, então precisa aceitar as coisas como são, uai!

Eu não poderia deixar de citar o “uai”, porque tenho um pezinho em Minas Gerais, e sinto certo afeto por ele... Uai.

A mãe de um bebê, fofo que só, que o tempo todo apenas sorria e dava gritinhos daqueles que fazem adultos se desmancharem, contava às novas amigas de espera de cartório que ele era o terceiro dela, que já tinha um casal de gêmeos. A partir daí, fui instruída sobre o que ela chamou, com graça, posso garantir, de vasectomia feminina. Sem conseguir se lembrar da palavrinha mágica, laqueadura, que é a cirurgia para que a mulher não engravide mais, ela repetiu algumas vezes: “vasectomia feminina, como se diz mesmo?”, até que uma das amigas da vez a salvou, desviando o assunto:

- Quem tem de fazer isso é o homem! Sofre menos...

Quem disse que amizade de espera em cartório eleitoral não pode ser verdadeira, apesar de efêmera?

Apesar da fome que me consumia na hora minha de almoço dedicada ao meu título de eleitor, o entra-e-sai de portadores de senha era interessante de se ver. Logo que cheguei, veio o moço e me perguntou se o atendimento estava demorando. Expliquei que acabara de chegar e ele me mostrou a senha dele: 456. Disse que morava perto, que veio, pegou a senha, foi embora e voltou e aí já tinha passado mais de hora. Olhei para o painel eletrônico que apontava para a senha 449. Depois olhei para a minha: 475.

Então, passei a esperar não pelo atendimento da minha senha, mas pelo da senha do moço, afinal, o desfecho dela estava muito mais próximo. Torcia para que ele fosse chamado logo, até porque o moço me pareceu bem educado e depois dele seriam apenas mais 18 pessoas atendidas antes de mim.

Dediquei-me ao pensamento positivo e, num quase mantra, na minha cabeça eu repetia: atendam logo o moço da senha 456... Atendam logo o moço da senha 456...

Como cometi o gravíssimo erro de não carregar um livro comigo, tive de inventar história. Antes de o moço da senha 456 ser chamado, eu tinha lhe dado nome: Bento. E uma biografia: consertador de corações partidos. Bento tinha um escritório no centro da cidade, um lugarzinho meio sombrio, que na verdade sofria de falta de aconchego, mas onde a magia acontecia. Munido de linhas, agulhas e grampeadores, ele remendava os corações partidos, depois os colocava em almofadas dispostas em uma prateleira, que parecia não ter fim, para que descansassem e se recuperassem.

Alguns corações até cicatrizavam e voltavam à ativa mais rápido do que o consertador imaginava. Mas havia aqueles que pediam por cuidado extra. Que levavam mais tempo para serem curados.

Quando o 456 surgiu no painel eletrônico, meu coração já recebia o 12º ponto dos 13 que eram necessários para consertá-lo. A essa altura, eu já havia pedido o consertador em casamento, prometendo perfumes e cores para desbancar a solidão dele e alegrar o seu escritório.

O moço da senha 456 não demorou a partir. Uma ‘eu’ chorosa dizia ao consertador que jamais o esqueceria e que o queria bem, apesar de ele não ter terminado o remendo do meu coração.

Depois disso, como não sabia a senha de mais ninguém, comecei a pensar na lista de coisas que teria de fazer ao voltar ao trabalho.

Confesso que, quando o painel gritou pelo 474, eu fiquei um pouco nervosa. Depois de tanta espera... A moça da vasectomia já partira há um tempão, carregando o fofo do seu rebento com ela. As suas amigas de cartório já não estavam mais lá. E então: 47...

Entra o moço da senha 456 no cartório e sequestra a minha vez.

Minutos depois, a atendente ao lado me chamou. Preenchi ficha e esperei mais um pouco, como ela pedira. O moço do 456 ficou um tempo ao meu lado, mas logo foi embora, deixando o meu coração mais do que partido.

Afinal, eu torci tanto por ele e o tal roubou foi a minha vez... E, quiçá, o meu coração.


www.carladias.com

Partilhar

4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, cada um tem a fila que merece. :) Que bom que você compartilha com a gente seu merecimento criativo. :)

Debora Bottcher disse...

Moça... Vc é uma gênia da imaginação... Quanta história bonita de ler - e de viver... :)
Beijo sempre.

albir disse...

A partir de agora, Carla, vou frequentar filas com menos tédio e mais atenção. Abraço.

Carla Dias disse...

Eduardo... Verdade, cada um tem a fila que merece. Ainda bem que a minha andou, nesse dia, e deu tempo de resolver o problema ainda na hora do almoço, com um pouco de imaginação aguçada, claro.

Débora... Ai, ai... O que posso dizer? Fiquei com vergonha! Gênia eu não sei se sou, mas garanto que ando cada vez menos medrosa nas minhas viagens. Beijos!

Albir... Que bom! Já que temos de entrar na fila, que seja com a cabeça nas nuvens. Sabe que sempre algo acontece comigo nas filas...