sexta-feira, 21 de maio de 2010

PORTO ALEGRE REVISITED >> Leonardo Marona

Devemos nascer em algum lugar apenas para nos livrarmos dele. Nem a sombra de Mario Quintana... Tua praça está fechada com tapumes, tua estátua mal-feita de bronze – e tanta ternura tinha aquele objeto mal-resolvido! – serve apenas aos pombos e pedreiros viciados em craque. Há qualquer coisa que se arrasta pelo centro. A praia da Rua da Praia inundou, e os camelôs miram com certa alegria débil a própria ruína espacial, derramada em mijo quente e amarelo. O teu centro cultural são banheiros arejados com cheiro forte de urina velha, e a luz do sol que embeleza a cena é como a luz do sol que entra pelas frestas das prisões abarrotadas. As pessoas andam nas ruas e não pedem nada. Aceitaram a fome antiga das tradições européias, e a decrepitude só assusta aos que vêm de muito longe. Andam famintos, escorados nos postes, as rugas representam rios secos, e não pedem nada, alguns sorriem. Teus passarinhos, velho poeta, foram abatidos em pleno vôo. Restam as famílias fragmentadas e a expectativa da emoção em atitudes duvidosas.

A família está junta. Não se conhece há anos. Levantamos nossos copos – “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra!” – e estamos outra vez em silêncio, vendo a televisão. Na estranheza acumulam-se calos. Andar sem parar é uma forma de não pensar na fuga. O Parque da Redenção ainda atinge um pouco o âmago, o verde é mais verde, o chafariz ligado, em todo o seu provincianismo, é uma imagem juvenil, com suas tias de boinas francesas e suas menininhas de cabelos cor-de-rosa e botas de exército, pintando quadros infantis. Ali também estão os meninos pobres que não decaíram. Estão na sarjeta, catando restos, mas, quando pedem alguma coisa, pedem sem atenção, displicentemente, olhando para os lados e roendo as unhas, pedem por manter uma tradição de pedir, porque viram pessoas acabadas, mais velhas, experientes, quase mortas, seguirem por esse caminho e, assim como a nós, os que podem dar e se recusam, eles, os meninos das garrafas de cola, desprezam seus antepassados porque estão na miséria mais profunda, que é a miséria do espírito, e dependem daqueles restos de sardinha como o traidor que negocia com o diabo a própria corda em volta do pescoço.

Mas os meninos invadem o chafariz e atrapalham a aula de belas artes. Existem por ali também algumas magras moças argentinas com brincos nos narizes e polainas sobre os sapatos muito sujos. São sujas como o tempo, embaçadas, e carregam pequenos cachorros de pelo ralo. Param nas pastelarias, dizem “hola, que tal?”. E de repente sou um pouco mais argentino, de um núcleo sertanejo, e meto um gorro na cabeça e faço amizade com paraplégicos nos bares com grades enferrujadas. Falamos uma língua que não se constrói pela necessidade. Não precisamos de nada e gostamos de esperar assim tão pouco. Estamos alheios a tudo, no mais, somos tetraplégicos do tempo. Corremos pelas alamedas infestadas e com as fachadas em ruínas, desviamos da moral atrás de drogas rápidas, e de repente – vupt! – num solavanco derrubo o paraplégico, meu amigo, no chão. Ele grita que enlouqueci, rimos, tento erguê-lo com a minha força, mas já é de manhã, e logo mais tem jogo no Estádio Olímpico Monumental. Derrubo outra vez meu amigo no chão. Ficamos ali, estendidos na avenida sem movimento.

Quebramos sem querer algumas garrafas, somos selvagens da ternura por alguns instantes. Um ônibus até Viamão, paro na Barão do Amazonas, subo muito, subo como um Sísifo, estou numa boca braba. Tenho ganas de descer rolando pela rua e aceno aos homens que limpam armas niqueladas, com palitos enfiados nos dentes, muito magros, sem cor, pretos sem cor, brancos sem cor, nos sentimos bem juntos e eles me devolvem o aceno. Grito: “Logo mais tem jogo do Grêmio!”. Eles respondem em uníssono: “Dá-lhe!”. Não sou mais desse lugar a não ser pelas entranhas malogradas. Saio correndo e durmo apenas meia hora. O frio cobre a minha coragem e tento tirar alguma restante da minha estropiada camisa onde se lê escrito: red eyes no more. Morto de frio, sigo ao estádio.

Mario Quintana, meu querido, seu tempo já foi. Agora somos uma massa descontrolada, temos as vozes roucas e a pele ressequida, não deixaremos mais a sorte se refugiar nos peitos doentios de poder, temos anos de experiência na seqüência da morte – precisamos passar. Mas não nos dê licença, meu senhor. Com a alma azul celeste passaremos atropelando as tendências como búfalos de alto preço e, prestes a sermos abatidos, daremos a vocês a energia de mil sóis.


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