quarta-feira, 22 de abril de 2015

A SENHORA DE PIJAMA >> Carla Dias >>


Acredita que nada do que disser servirá para lapidar a ideia do outro. Que sua opinião sobre assuntos diversos não é capaz de influenciar qualquer mudança na certeza alheia. Ele é uma pausa constante, adepto do sedentarismo intelectual.

A solidão faz parte do seu ser, que sabe bem que se envolver em grupos de pessoas pode levá-lo a quebrar promessa feita a si, a de se manter fiel à incapacidade de se tornar autor de consequências. Obviamente, a tática não é completamente eficaz. Às vezes, sem querer, ele esbarra em escolhas que tem de fazer e que respingam na realidade do outro.

Saiu de casa para fazer a compra do mês, que antecipou em cinco dias, pois acabou a cerveja. Ele é web designer conhecido do meio, principalmente por manter quase nenhum contato com o cliente e sempre entregar um trabalho impecável. Ninguém se importa em não encontrá-lo pessoalmente, porque ele sempre cumpre muito bem o seu papel.

Fosse levar à risca seu desejo em viver longe do mundo, cancelaria as compras do mês no supermercado. Por que não fazer as compras online, como qualquer pessoa normal? Mas acontece que ele gosta desse passeio mensal pelos corredores do supermercado. Apreciar aqueles produtos todos ao alcance de suas mãos, não apenas adequadamente visualizados em uma tela. Às vezes, ele aprecia esbarrar o carrinho no de outro cliente, cometer o pecado de comprar um pote de sorvete completamente impróprio para um diabético.

A fila longa o exaspera um tanto. A lentidão com a qual o caixa passa os produtos pelo leitor de código de barras, a criança choramingando por causa de um chocolate caro e oco, a mãe entretida com a revista de fofocas exposta. Por que ele se permite passar por isso uma vez ao mês, já que parece que as pessoas são muitas e as mesmas?

Cutucam-lhe o ombro e ele se vira, dando de cara com uma senhora miúda, com grandes óculos e cabelos meio bagunçados, segurando um pacote de feijão e uma garrafa de vinho. Vê-se que a possível sexagenária não se importa com o visual, já que usa pijama, pantufas e um longo penhoar. “O que diabos estamos fazendo aqui, meu jovem? Veja bem, eu gosto de pessoas, mas toda vez que venho ao supermercado, eu passo a odiá-las... Ao menos até chegar a minha vez no caixa”.

Ele não é de jogar conversa fora, por isso a cara de bravo. Ainda assim, a senhora parece nem se importar com isso, e segue falando sobre a lerdeza do caixa, a criança birrenta, a mãe distraída. Mediante o silêncio dele - e as várias vezes em que ele tenta se desconectar dela, dando-lhe as costas -, a senhora lhe toca o braço, pedindo atenção, e lhe conta histórias sobre quando era jovem, e sobre a velha que se tornou. É assim que ela consegue fisgá-lo, mas de um jeito, que ela é que tem de avisá-lo quando a fila anda.

“É uma questão de perspectiva, meu jovem. Eu sou uma mulher que tem histórias pra contar, porque mergulhei nessa vida, engoli água, até me afoguei, mas olha só! Aqui estou...”

A cada passo que o aproxima do caixa, seu coração se apequena. A senhora, à qual outros da fila lançam olhares curiosos e censores - que onde já se viu vir ao supermercado vestida desse jeito! -, tem tantas histórias hilárias para contar, que ele nem se importa se são verdadeiras ou inventadas. Ela dá vários conselhos a ele: “saia de casa ao menos uma vez na semana. Sei que ficar sozinho em casa é muito bom, mas não podemos ignorar o mundo, não é mesmo? Eu vou ao cabeleireiro uma vez por semana. Tem uma moça lá que vive com problemas familiares e amorosos, e precisa de quem a escute, nem que seja uma vez por semana. Por que não?”

Depois de ser atendido, esperou a senhora passar o pacote de feijão e a garrafa de vinho. Então, ele a acompanhou até a casa dela, duas quadras dali; cinco quadras de sua casa. Ela não aceitou quando ele pediu para carregar sacola dela. Aparentemente, há certa dignidade em carregar suas próprias compras.

A frente da casa da senhora é bem estreita, “mas é comprida pra dedéu...”, tem dois quartos, sala, cozinha, dois banheiros e um quintal com árvore. Antes de entrar, despediu-se dele com um sorriso incitador. “Quem sabe, dia desses, você me conta algumas das suas histórias.” Entrou em casa e ele ficou lá, em pé, fascinado pelas histórias da senhora de pijama.

A compra do mês se tornou a da semana. Uma vez por semana ele vai ao supermercado, esperando encontrá-la novamente. Desde aquele dia, seus pensamentos andam eriçados, desejosos de adquirem mais inspiração. Os clientes têm lhe parabenizado, que apesar de seu trabalho sempre ter sido impecável, pela primeira vez ele também se mostra fascinante.

No caixa, passando barras chocolate nada indicadas aos diabéticos, observa ao redor, buscando por ela. O caixa, o mesmo de sempre, que de horário ele não muda, diz que ela não veio mais, desde o dia em que eles se encontraram. Ele sorri, ensaca suas compras e segue confiante até a casa da senhora. Em pé, à porta dela, ainda leva um tempo até tocar a campainha. Quem lhe atende é um rapaz, lá com seus vinte e poucos anos, o olhar tão azul quanto o da senhora. Pergunta por ela, “a senhora de pijama”, e o outro pergunta quem é ele. “Eu a conheci no supermercado...” O moço lhe devolve um fiapo de sorriso.

A senhora de pijama passou uma semana inteirinha falando sobre ele para a sua família: três filhos e sete netos. Todos ficaram impressionados sobre como ela se tornou falante, já que parecia que jamais se recuperaria da morte do marido, alguns meses antes. A casa parecia estar em festa, os filhos estavam sempre por perto e adoravam trazer as crianças.

Sentado no sofá, defronte aos três filhos da senhora, todos com os olhos azuis, feito os dela, meio chorosos, ele escuta agradecimentos sobre o que ele não sabia ter feito. “Obrigado por ter escutado as histórias dela. Nós já as conhecíamos, e como nosso pai já não estava entre nós, ela não podia contá-las como se ele ainda não tivesse partido”.

Maria Amélia Ferraz de Souza, a senhora de pijama, faleceu há alguns dias, mas foi tudo muito tranquilo. Contou aos filhos que conhecera um jovem amuado, de olhar triste, alma reverberando solidão, e que confidenciou a ele as histórias de sua família. A gentileza do moço em escutá-la, sem se defender da velha doida, como escutou alguns a chamarem, naquele dia, transformou aquele olhar. E as histórias eram todas verdadeiras, até as mais surreais. Aparentemente, antes de se enfiar em pijama e beber uma garrafa de vinho por dia, ela e seu marido viveram muitas aventuras.

Volta para casa, uma tristeza lhe cutucando a alma. Volta aos seus afazeres, impecáveis, sempre. Volta ao silêncio, que é quebrado, vez ou outra, por música. Volta ao pensamento sobre sua existência significar nada para o outro.

Só que ele não se sente mais uma pausa constante. Dentro dele, a vida começa a reverberar diferente. Solta um fiapo de sorriso, lembrando-se da gargalhada tão miúda quanto ela. Faz a compra do mês pela internet, depois sai para uma volta pelo bairro.

Imagem: Le Double Secret © René Magritte

carladias.com



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