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PALAVRAS E SILÊNCIO >> Carla Dias >>


Vendo a menina crescer assim, saudável, e até bem servida de inteligência e ótima nas tarefas que pedem pela percepção apurada, os pais nunca imaginaram que ela mergulharia naquele mundo íntimo, no qual não cabiam palavras ditas.

Apaixonada pelas palavras ela sempre foi. Aprendeu a ler com muita facilidade, a escrever com apuramento. Ela escrevia cartas porque gostava de escrevê-las, mas os destinatários eram personagens que inventava, porque é um desafio fazer amigos se não falar com eles. Assim, ela as escrevia em um caderninho encapado com papel kraft - que sempre teve uma queda pelo rústico -, sóbrio em nome da beleza que abrigava. Cada caderno guardava as cartas que ela escrevia a um mesmo personagem.

O silêncio dela não se devia a qualquer questão física, de acordo com o diagnóstico de dezenas de médicos que os pais procuraram, quando ainda se agarravam à esperança de escutar a voz da filha. “Parece-me que sua filha escolheu não dizer palavras”, manifestou-se o Sr. Arnaldo, morador do apartamento 34, ex-tarólogo e ainda atuante guru de vários ilustres artistas. “Um dos meus clientes fez isso, certa vez. Decidiu não dizer palavras e se calou por três dias”.

Agarrada à desolação, a mãe ruminou o pensamento: o que são três dias se comparados a uma vida?

Ela foi menina feliz, de sorriso aparente. Tornou-se moça dedicada, apaixonada por etimologia. Os pais, mais conformados com o silêncio escolhido, não compreendiam seu entusiasmo pela origem das palavras combinado à negação em pronunciá-las. A esperança de escutar a voz da filha se dissipara.

“O mundo é barulhento.” Assim ela iniciou a carta número 1.234, escrevendo em um dos caderninhos encapados com papel kraft que ela, caprichosamente, guardava em um baú, aos pés da cama. O mundo é barulhento, as pessoas disputam espaço na percepção do outro aumentando significantemente a sua voz, praticamente aos berros, na verdade. Usam as palavras mais gentis imbuídas em ironias, no desejo nada secreto de ofender o outro. E quando se trata de ofensa, não há quem tenha razão. A ofensa nunca tem razão, mesmo quando saliva verdade.

Não que ela desgoste do som da palavra dita, ao contrário. Aprecia quando elas expõem um pensamento, filosofam sobre qualquer assunto, inclusive os indigestos. Para ela, preferível é admirar quem diz a palavra sendo fluente e justo no dizer.

Mesmo quando os pais morreram, em um acidente de carro, ela disse palavra. Escreveu para cada um deles uma longa carta sobre a felicidade que eles proporcionaram a ela e com tamanha gentileza. Colocou as cartas junto aos corpos, beijou-lhes a testa e, silenciosamente, despediu-se deles.

Chegou o dia em que acordou e sentiu a necessidade de mudança lhe tomar.  Primeiramente, tinha de se desfazer do passado no qual se mantinha ancorada. Foi ao quarto, espalhou os cadernos-carta no chão, contou cento e cinquenta e quatro... Cento e cinquenta e quatro pessoas que não eram pessoas, mas tinham nome. Melhor coisa era arrumar para cada uma delas um endereço.

Sr. Arnaldo, apesar de debilitado pela saúde frágil e a idade avançada, ajudou a moça a escolher as pessoas. Ela escreveu uma carta-explicação e, caprichosamente, envelopou os cadernos, em envelopes de papel kraft, escrevendo nome e endereço de remetente e destinatário. Assim, em alguns dias seus cadernos ganharam um novo código postal.

O ex-tarólogo, depois de décadas longe das cartas, fez um jogo para ela. “É o último dessa vida, que já estou em ponto de descanso.” Durante a leitura, ela se sentiu profundamente agradecida pela gentileza daquele homem que a conhecia desde sempre, e o único a nunca ter lhe pedido para dizer palavra. De certa forma, ele apreciava e compreendia o que silêncio dela dizia.

Durante a sua vida, a moça disse palavra nenhuma. Os únicos sons que ela não pôde deixar de emitir foram o do choro, o da gargalhada e o da dor. Dos cento e cinquenta e quatro cadernos-carta que espalhou pelo mundo, trinta e sete pessoas lhe responderam. Doze delas para contar como se desfizeram do caderno recebido: fogueira no quintal, lago no fundo da casa, trilho em estação de metrô, aterro sanitário e etc. Vinte e quatro pessoas agradeceram, pois acharam as palavras escritas profundamente emocionantes, e juraram guardar seu caderno-carta com o maior carinho. Uma pessoa escreveu e pediu resposta a sua carta. Assim, pela primeira vez, ela postou uma carta e fez um amigo. Pela primeira vez, a pessoa não era personagem.

A carta da mudança.

Imagem: The Letter © Haynes King

carladias.com

Comentários

Zoraya disse…
Carla, não sei qual carta o tarólogo tirou para a personagem, mas deve ter sido Ermitão, que, ao acender a luz para encontrar Conhecimento, acaba iluminando quem está em volta.
E 'E quando se trata de ofensa, não há quem tenha razão. A ofensa nunca tem razão, mesmo quando saliva verdade., nossa, sensacional.
Carla em estado puro
Carla Dias disse…
Zoraya... Muita luz para nós, que estou aberta à iluminação :)

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