terça-feira, 8 de setembro de 2015

SURDEZ MUSICAL >> Clara Braga

Não importa o quão bem você escuta, com certeza seu ouvido já te pregou algumas peças e a maioria com certeza rendeu boas risadas. O meu clássico engano foi com um famoso ditado popular: "Quem canta seus males espanta"! Passei nem sei quantos anos da minha vida dizendo: "Quem canta seus mares espanta!" Um erro bobo, mas que faria muita gente surtar sem saber o que escolher: lavar a alma cantando junto às alturas aquela música predileta e nunca mais dar um alô para Iemanjá ou curtir uma prainha ouvindo um ipod tímido só batendo o pezinho no ritmo.

Mas nem só de ditado popular errado vive o homem, no caso, eu. Músicas também são alvos constantes de mudanças drásticas. Costumo me apropriar de uma piada de um desses humoristas e dizer que o parâmetro para saber se você tem ou não ouvido bom são as músicas do Djavan. Não entendeu? Eu explico.

Minha falha mais “grave” até hoje foi com uma música do Capital Inicial. Não vou falar quantos anos da minha vida passei cantando errado a letra de Veraneio Vascaína pois seria muito vergonhoso, mas a verdade é que eu não sabia o que era veraneio. Sim, eu sei, é uma daquelas palavras que todo mundo sabe o significado e você não, mas enfim, isso não vem ao caso. No início da letra, Dinho Ouro Preto diz: "Cuidado pessoal, lá vem vindo a veraneio, toda pintada de preto, branco cinza e vermelho". Como eu não sabia o que era veraneio, decidi que era uma avenida, então sempre cantei: "Cuidado pessoal com a avenida veraneio, toda pintada de preto, branco, cinza e vermelho". Nunca busquei saber onde ficava a tal da avenida, só sabia que não era em Brasília, já que ela tem esquina, então já fiquei mais tranquila.

O legal é o momento em que você descobre a letra verdadeira. Parece que seu ouvido desentupiu. Você fica se questionando como pôde ouvir uma letra tão absurda por tanto tempo. E se esse problema com letras de música não for inerente à raça humana, com certeza é genético. Minha mãe conseguiu fazer uma confusão tão louca com uma letra da Maria Bethânia que eu nem sei reproduzir, misturava palavras não existentes no dicionário português com outras que só os nossos ancestrais usavam. Já meu pai, fez Elis Regina se revirar no túmulo e Belchior estremecer. Enquanto ela cantava, "mas é você que ama o passado e que não vê", na música Como Nossos Pais, meu pai acompanhava: "Mas é você que é mal passado e que não vê". Sim, MAL PASSADO, tipo carne na churrascaria rodízio.

Então as pessoas se perguntam: mas será que as pessoas não percebem que essas letras inventadas não fazem sentido? Sim, percebem, e é exatamente nesse momento que nós voltamos a falar do Djavan. As pessoas percebem que algo não faz muito sentido, mas existe uma coisa na música chamada licença poética que faz com que coisas estranhas, e às vezes fora do que seria considerado a norma, sejam aceitas. Portanto, a regra é clara, se você canta uma música do Djavan e a letra tem tanto coerência quanto concordância, bem vindo ao time, seu ouvido não é muito confiável!


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ri a valer, Clara. :))
Djavan é mesmo um desafio para qualquer ouvido. Não sei como eu ouvia antes, mas fiquei chocado quando uma amiga cantou o correto "nem que eu bebesse o mar, encheria o que tenho de fundo".