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O EXECUTOR >> Carla Dias >>


Acha a vida curiosa. Curioso mesmo é que pense nisso justo agora, observando o morto naquele caixão luxuoso. Na verdade, acha a vida irônica. Para que tanto luxo na hora da partida? Ele mesmo, se houvesse como intervir no próprio funeral, certamente optaria por algo menos pomposo. Aquele caixão ali, onde jaz um ser humano despido de espírito, a carne pesando um processo inevitável de putrefação, enfiado em um terno que ele, o espectador, usaria em algum evento muito, mas muito chique. Talvez um daqueles recitais na sala da casa de outro.

Não pense que se trata apenas do aspecto material a levá-lo a essa divagação, em pleno despacho de defunto, porque este, ao contrário do que se prega, é muito mais fácil de se explicar. Na verdade, ele prefere resumir: há quem ache a morte tão feia, a ponto de passar a vida conquistando uma forma de tornar-se belo, enquanto é engolido por ela. Feito agora... tudo tão lindo, tudo tão requintado, até a encenação da tristeza parece ter sido habilmente dirigida por algum diretor europeu premiado. As pessoas transitam pelo grande salão de festas – sim, salão de festas, porque o morto achava as salas próprias para funeral desprovidas de cuidado na decoração, como se vazio devesse ser decorado – com taças nas mãos, bebida das mais caras, usando seus trajes de festa.

Sim, trajes de festa.

Não vê problema em morto querer festa durante seu funeral. Acha até que seria uma opção que ele mesmo faria, porque gostaria que sua passagem pela vida fosse celebrada, ainda que uns e outros comentassem, enquanto se despedissem dele, sobre o quão sem-vergonha ele foi. 

Quem não mantém relações de amor e ódio?

Porém, não conseguiu lidar muito bem com o convite, no qual rezava não somente data e horário do funeral, assim como a exigência de traje de gala, e algumas outras excentricidades que não o acuavam. Foi ali, naquele P.S. indecente, na barra da saia do convite, que ele se sentiu desafiado a observar o morto com incômodo.

A viúva conta histórias que ele, o espectador, sabe que são recicladas de outras aventuras. Porque ali, naquele corpo impregnado de ausência, morou alguém que pouco se importava com o outro, o que ele achava bem triste. Costumava sentir certo pesar pelo morto, quando vivo e desprovido de qualquer habilidade de sentir afeto por um ser humano. Ele gostava de bichos, e isso amansava um pouco o desconforto do espectador, de quando tinha de conviver com o parceiro de negócios, amigo de ocasião, escutando ele decidir o destino de outras pessoas, sem se importar se suas decisões, às vezes tomadas na pressa de terminar mais cedo o dia de trabalho, para se preparar para uma festa, afetava a vida delas. Agora, olhando para ele, ali, vazio e inchado, enfiado em uma caixa de madeira nobre, talhada por um artista que ele adorava, e que fez a arte da morte dele com o mesmo desdém que o morto dedicou ao mundo, só consegue pensar em como a vida pode ser cruelmente irônica.

Uma vida inteira dedicada ao nada, enfeitada por itens de encher os olhos, preencher destaque social, ornamentar relacionamentos furtivos.

Acha a vida engenhosa no seu oferecimento de desfecho, um pouco mais, neste caso. Observa que a boca do morto está bem torta. Não consegue tirar os olhos dela. Pensa que o defunto em questão contratou, ainda em vida, claro, o melhor serviço funerário. Tinha de um tudo: figurinista, maquiador e o escambau. Era homem bem-apessoado. O espectador presenciou vários suspiros de moças e moços ao conhecê-lo. Ele adorava suspiros... adorava debochar deles. E se ele pudesse observar a si mesmo naquele momento? O morto perceberia que, agora que ele não pode apitar mais nada, poucos são os que se importam com seus desejos, dedicando a ele o mesmo desinteresse que ele dedicou a quem por ele passou em... 

Ah! Tem isso... 

Morreu jovem.

A visão da boca torta do defunto agonia o espectador, mas não tanto quanto aquele P.S. de convite para funeral. Olha ao redor, tantas pessoas naquele salão, desfilando tristeza com a qual lidam na repetição da taça vinho. Tantas pessoas, figurantes em uma vida que não tinha vida, apenas desejo desenfreado por fazer o que almejava para si e mais ninguém. Ali, enfiado naquele caixão que, por descuido imposto, é tão justo que o espectador pensa que o morto deve sentir falta de ar. Percebe até que tiveram de empurrá-lo, com força, para que coubesse no seu novo lar.

Sente-se triste pelo defunto. Sente-se ofendido por ele. 

O olhar se espalha pelo salão. Percebe o esforço que eles fazem para atender ao desejo do morto. Uma coisa o espectador não pode negar: aquele homem sabia como explorar o medo do outro de ser humilhado e, principalmente, rebaixado de nível social. Todos parecem tristes e muitos estão bêbados, o espectador não os culpa. O morto fez por merecer a ojeriza que sentem por ele, que nem mesmo a morte conseguiu apagar. Ainda assim, olhos lacrimejantes, gestos miúdos e presença. Todos compareceram, inclusive ele.

O padre boceja longamente, enquanto discursa sobre o quão importante o morto foi para os presentes. A esposa pisca freneticamente. O espectador ainda encara a boca torta do morto. O padre fala algo sobre perdão, o que o defunto não fazia ideia do que se tratava, fosse oferecendo ou requisitando. O padre fala e não acredita no que diz. Nem o padre acredita nessa última cena roteirizada pelo morto. Ainda assim, todos desempenham os seus papeis.

Não pensou que ele fosse errar a mão justamente no desfecho da sua produzida despedida. Aquele P.S. de convite de funeral era ridículo, mas o espectador não imaginou que ela deporia contra o finado. Esqueceu-se de que, assim feito ele, os que cercavam o defunto eram capazes de se manterem na interpretação de quem eram, diante dele.

O que pensou ao escrever esse roteiro? O espectador agora sente mais tristeza do que aversão pelo morto. Seus olhos marejam, mas não são lágrimas de crocodilo. É um choro contido, mas mora nele um pesar honesto. Como ele pode errar o horário? Aquele “até o amém”, que certamente julgou ótimo para encerramento de cena, renderia uma lembrança péssima ao defunto.

Ainda bem que ele está morto.

Assim, o padre diz “amém” e parece que a cortina se fecha. É perceptível como os corpos relaxam, os sorrisos brotam, a volume da voz é aumentado. E ninguém mais olha para o morto. Ninguém quer saber dele, a não ser o espectador.

O espectador aproveita a distração geral e tenta ajeitar a boca do morto, mas sem sucesso. O morto avisou que a função dele seria monitorar o funeral, mas ele não sabia, até receber o convite, do que se tratava. Vai ter de ir para a empresa e fazer anotações, aprovar os funcionários e os familiares, para que se cumpra o determinado pelo morto. Um desejo impróprio, ridículo, mas o desejo do dono do tudo que todos querem herdar.

É o único a acompanhar o sepultamento.

No salão de festas, festa de fato. Gargalham os presentes, felizes por terem se livrado da presença daquele ser desprezível. O espectador não consegue entender o motivo de homem tão poderoso, um mestre na arte da manipulação, ter se deixado levar por um “amém”, e assim, acabar dessa forma: defunto, de único espectador, apertado em um caixão que deveria ser uma obra de arte, mas é apenas a prova da falta de importância daquele homem. Uma arte mal-acabada. 

Abre o convite para uma releitura rápida. O defunto quase conseguiu... quase teve o evento memorável que acreditava merecer, mesmo que diante de imposição. 

P.S.: Fica proibida qualquer manifestação de alegria – flertes, gargalhadas, gestos bruscos com os braços, piscadas e afins –, durante o meu funeral. Enquanto o padre não disser “amém”, todos estão sujeitos a perder herança ou emprego, caso contrariem meu desejo.

O espectador acha a vida curiosa. Ela e seus laços, suas ciladas, seus improvisos. Acha as pessoas curiosas. Por um momento, fica em dúvida se aquele “amém”, antecedendo seu enterro, não seria proposital, para que o defunto fosse em paz, na solidão na qual viveu e não admitia. Mas esse pensamento vai embora tão rápido quanto chegou. Não é homem de lacear poder. Foi erro do morto, mesmo. 

O espectador, também executor de último desejo, não tem como mudar o feito. Às vezes, até os mais astutos se perdem no desejo de encontrar Deus na hora da morte. É quando até um “amém” pode esvaziar a sala e impor solidão. 


Imagem: Dance of Death © Anônimo
Fonte: metmuseum.org

carladias.com

Comentários

Zoraya Cesar disse…
ESPETACULAR. E mais não digo, pra nao estragar o silêncio do morto.
Albir disse…
Como demitir ou deserdar agora o espectador?
Carla Dias disse…
Zoraya, silêncio do morto é coisa séria. Obrigada!

Albir, se você descobrir como, por favor, me conte.