quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

DEVANEIO >> Carla Dias >>

Percebendo a vida de um jeitinho diferente, com a entrega necessária para não dar mais valor ao que não tem qualquer valor. A entrega de quem se senta na varanda, só para ver final de tarde desfilando, porque acha agradável apreciar a mudança das cores em cenários tão conhecidos, que se tornam misteriosos enquanto o anoitecer acontece.

Gostaria de saber o segredo para manter essa entrega por mais tempo do que me é permitido, porque a rotina grita, em uníssono com os rigorosos horários, mil e tantas tarefas para um único dia, e aquele bando de sorrisos distribuídos às malhas da necessidade de se bancar o satisfeito, feliz até, e por motivos nos quais sequer cabem um naco que seja de felicidade.
Às vezes, pego-me pensando em como lutamos para chegarmos onde, supostamente, desejamos. E, chegando lá, parece um vão, e um tudo em vão, e não sabemos o que fazer com a conquista. Então, ela seca, feito plantação contemplada pela aridez, que lhe suga a capacidade de sobreviver à estiagem. E se torna uma lembrança áspera, despida da possibilidade de haver esquecimento.
Lembro-me de quando, ainda menina, sentava-me à porta do terreno onde morava. Sentava-me lá, onde o silêncio era presente, as ruas ainda eram de terra, e havia aquele momento da tarde em que a luz do sol parecia se misturar à sombra, criando uma luminosidade diferente sobre a avenida que eu costumava observar. E então, hora e pouco depois, serenava, e o dia deixava de ser quente, de sol no talo, para cair a garoa. Um espetáculo diário, do qual, naquela época, eu não sabia da importância. Eu não sabia da importância de se ter tempo e entrega para se sentar e contemplar a vida acontecendo, sem se distrair.
Talvez seja isso, seja hora de serenar, de desapropriar o desejo pelo futuro das buscas que, teimosamente, mantenho vivas dentro de mim. De me livrar do desejo pelo futuro, que vem se tornando cada vez mais curto, enquanto insisto em esperá-lo. E mesmo isso não tendo nada a ver com você, posso lhe assegurar que, se você puder, aproveite a entrega quando ela aparecer, e as varandas, o sol iluminando silêncios, as buscas que duram somente o que devem. E os sorrisos que não respeitem horários comerciais, mas são resultado da intensidade da alegria vigente.
Podemos não ser felizes as vinte e quatro horas do dia, mas se pudermos sê-lo sempre que a felicidade comparecer, seja contemplando fins de tarde ou acontecendo com elas, aprenderemos também a respeitar quem nos tornamos a cada escolha, a cada passo, a cada descoberta.
Como diz Rainer Maria Rilke: “as coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer...”



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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Carla, não tem jeito, depois dessa crônica, "terei que" dar umas três voltas no parque, para ajudar o Sol a se pôr corretamente. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... que sejam passeios agradáveis!

albir disse...

Carla,
me lembrou outra coisa de Rilke: "A vida mesma, porém, é difícil pela simplicidade".

Carla Dias disse...

Albir... Rilke é de uma riqueza, não?