domingo, 15 de janeiro de 2012

OBSESSÕEZINHAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Aviso logo ao leitor que não me venha com aquele papo de "sai desse corpo que ele não te pertence". Obsessões são boas, e eu gosto. Que seria da vida sem uma obsessãozinha? Uma monotonia sem sentido.

Não dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Então! A obsessão são as linhas tortas que precisamos desenhar para que Deus escreva certo por elas.

Pense na obsessão como um certo tempero feito das seguintes especiarias: julgamento equivocado, loucura, obstinação e excitação. Sim, o leitor está certo se a palavra paixão lhe veio à mente: a paixão é a forma mais disseminada e aceita de obsessão que há em nossa cultura. A criatura fica louca de amor por outra, julga-a erroneamente sem defeitos, fica no maior frisson e não consegue pensar em outra coisa que não seja naquilo. A paixão é perigosa — como são as demais obsessões — mas me diga, caro leitor, como chegar até o amor sem passar pela paixão. É missão impossível pra Tom Cruise nenhum botar defeito.

Claro que, se a criatura quiser parar ali na obsessão e não for mais para lugar nenhum, a coisa complica. Vai parar no presídio, no hospício, no hospital ou na igreja desobsessora do reino de deus. Paixão é que nem pimenta: se apreciar com moderação, não tem graça; mas se não moderar na apreciação, aí vai queimar na hora de sair.

Por isso que já tem médico — de corpo e de alma — prescrevendo dietas em que a paixão é tabu: "Não pode, não pode e não pode. Nem umazinha de vez em quando!". Pois não existe até um grupo das Mulheres que Amam Demais Anônimas. Só não entendo por que essa história de serem anônimas. Até onde sei, toda mulher ama demais, basta que lhe surja uma pequena oportunidade: um Don Juanzinho qualquer que seja.

Já para outros casos, o médico receita o inverso: paixão avassaladora na veia. E não precisa ser por homem ou mulher. Vale qualquer coisa. O que importa não é a paixão pela alma gêmea, mas a obsessão ampla, geral e irrestrita: bichos em geral, jogos, esportes, trabalhos manuais, novelas, facebooks, revistas de passatempo... qualquer hobbyzinho que lhe roube o pensamento, que tome sua mente como refém, está valendo. No fundo, se trata disso: ocupar a cabeça, agitar os neurônios, trocar a depressão pessimista pela insônia superexcitada. Manda ver! Não estuda muito o assunto, não. Entra com tudo!

Agora... Tem um detalhe. Unzinho apenas. Liga o despertador. Programa o alarme para daqui a alguns dias — alguns meses que sejam —, mas não se meta numa obsessão sem verificar o paraquedas antes. Afinal se você não sobreviver à próxima obsessão, como é que vai poder entrar na seguinte, e na que pode vir depois da seguinte? Deus é um escritor compulsivo, o maior criador que há. Temos que fazer a nossa parte: tracemos as linhas tortas, muitas, eternas, infinitas, mas não vamos embrulhar o novelo. Dessa forma, viveremos felizes — e obcecados — para sempre.

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4 comentários:

albir disse...

Sábio, obsessivo, comedido e apaixonado esse Edu: receita de equilíbrio.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Apenas um bêbado metido a equilibrista, Albir. :) Grato.

Ser Encontro (em princípio) disse...

Eduardo estou meio obscecado, agora.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bem-vindo ao time, Alci. :)