domingo, 8 de janeiro de 2012

UM JOGADOR VIOLENTO >> Whisner Fraga

Eu não era o dono da bola e não podia decidir, portanto, quem entrava ou quem saía do jogo, mas, mesmo assim, o menino se aproximou e, em vez de perguntar, intimou: eu quero brincar. Tudo isso na quadra do Palmeiras Clube, que, como todo mundo sabe, é comunitária. Para garantir uns chutes nos finais de semana, o procedimento era simples: bastava chegar cedo. A partir das oito horas, a coisa começava a ficar concorrida.

À medida que iam chegando mais meninos, novas equipes se formavam, alguém sentado na mureta empunhava um relógio e dizia que estava marcando o tempo e, desta maneira, ao final da manhã, todo mundo encostava os pés ou as mãos na bola. Uns ficavam mais tempo com ela, dependendo da habilidade, claro. Daí que, quando o moleque sentenciou que desejava entrar naquela hora mesmo, sem respeitar os códigos implícitos que garantiam a convivência mais ou menos pacífica entre a molecada, era de se esperar que todos se revoltassem. Não foi o caso, porque quem invadia o jogo era o Nandinho, famoso por ter uma navalha e saber usá-la quando necessário.

Só que caí na bobeira de achar aquilo injusto e chiei, assim, do nada, sem mais nem menos. Você tem de esperar a sua vez, eu disse, para surpresa de todos e alegria geral da nação. Devo reconhecer que o meu quase metro e meio não assustava praticamente ninguém, muito menos um protótipo de malandro, de forma que não sei o que me deu na cabeça. O sujeitinho simplesmente enlouqueceu. Apontou uma área deserta do clube e ordenou: ali. Seguimos, escoltados por quarenta e poucos garotos. Aconteceu de organizarem uma roda e no meio, eu e Nandinho, prontos para o duelo.

Ele cospe no chão, grita: água com terra vira barro, é em você que eu esbarro. Recitou essa bobagem e me deu um empurrão. Era minha vez. Fiz a mesma coisa – recital e empurrão. Seguindo o rito, Nandinho, pés descalços, pisa no minúsculo globo de lama, arrastando-o um pouco. Desafia: espalho o barro, seu burro, é você que eu esmurro. Depois parte para cima de mim e eu, como todo mundo sabe, no fundo e às vezes na superfície, sou um covarde. No trânsito, nas compras, nas filas, irremediavelmente covarde. Não sou do tipo que dá a outra face para baterem, porque corro antes.

E foi o que fiz: corri. Fechei os olhos e pedi às minhas pernas que me tirassem daquela enrascada. Se fizessem isso por mim, eu prometia retribuir o esforço com um belo descanso. Nessa de escapar sem ver o que tinha pela frente, me danei. Uma cerca de arame farpado me barrou, bem pertinho de casa. Uma batida magistral, uma coisa tão perfeita, que desafiou a lógica gravitacional. Meu rosto foi retalhado e era tanto sangue, que por pouco não precisei de uma transfusão. Resumindo: o estrago seria menor se encarasse os socos do Nandinho.

Podem acreditar: meu problema maior seria enfrentar meus pais daquele jeito. Era surra na certa. Vou confessar: não estava dando muita bola para meu rosto mutilado, minha preocupação maior era a roupa. Meu calção se rasgou e minha camiseta se transformou num trapo. O que eu iria vestir dali pra frente? Relembrando esses fatos, eu concluo, hoje, que era uma grande dor de cabeça para uma criança de dez anos administrar.

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Whisner, até onde lembro a infância é uma grande dor de cabeça (e de outras partes do corpo) para administrar). :)