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HIATO >> Carla Dias

Há esses dias em que girar a chave e sair de casa requer mais do que o reflexo da rotina, porque os ônibus ficam barulhentos demais, os faróis enrubescem sempre que você está acompanhada da pressa, tão acanhados pela sua presença. As pessoas esbarram em você para lembrá-la que as ruas não têm dono, apesar de sempre haver quem tente domá-las e reinar nas suas esquinas. Há quem confisque quarteirões apenas para que o temam.

Dia feito esse, com muito trabalho e confusão, em que os apontadores fazem falta, por isso mesmo parecem ter sido sugados da sua gaveta e também do planeta; o corretivo não consegue corrigir as imprudências, nem mesmo apertar repetidamente a tecla DEL é capaz de colocar suas ideias em pratos limpos. E parece que todos os telefonemas que você atende são para lembrá-la das suas falhas. De como você não foi capaz de finalizar isso ou aquilo.

A conta na ponta do lápis, a soma de despesas e a subtração instantânea dos ganhos. Em certo momento da vida, a gente se torna profissional em contabilizar o que falta, e jogamos essas informações naquele cantinho que, mais tarde, terá nome de meter medo: vazio.

Em dias assim, a gente se apavora por não ser o que todos esperam que sejamos. Por não atendermos a todos os desejos como se fossemos o gênio da garrafa, depois de um upgrade, e que tem o dever de atender a todos os pedidos sem titubear.

As folhas coloridas dos blocos de anotações, as esferográficas preferidas, as pastas para arquivar documentos importantes... Importâncias trancafiadas em dados colhidos e controlados através de formulários preenchidos pela necessidade. As luminárias novas da sua sala, o número da carteira de identidade no aviso de recebimento do correio. Os endereços postais pelos quais jamais passará.

Há dias em que acreditamos que a alma da gente jamais se desfará da frigidez cultivada no diariamente. E a distância que tomamos dos nossos sentimentos mais caros nos leva a uma jornada de questionamentos sobre o que fazemos, aonde iremos, quem somos ou seremos.

Em dias assim, aconselho que ouça uma das suas músicas preferidas, ainda que ao seu redor estejam batucando nas teclas de seus computadores as ordens do dia, criando uma sinfonia de atas, comunicados, dispensas, necessidades nem sempre necessárias.

E que, entre uma anotação e outra, haja a notação singela, porém fundamental, de que a vida é mais, muito mais do que a sensação de asas aparadas...

Ouça uma das músicas preferidas, leia o poema em voz alta, permita-se admirar com a legitimidade do que lhe toca. E principalmente alimente a ciência de que é possível sobreviver a dias como este, sem tornar os dias seguintes apenas rascunhos do que esperávamos que fossem.

Surpreenda-se também com sua capacidade de sobreviver a hoje para viver com mais intensidade amanhã.

www.carladias.com
http://talhe.blogspot.com

Comentários

Carla, não é que você adivinhou. Essa semana tive que ouvir, vezes sem conta, uma de minhas canções prediletas: A Lista, do Oswaldo Montenegro. :)
Carla, acho impressionante a capacidade que você tem de escrever sobre coisas tão distintas nas semanas que se seguem. E todas elas tão necessárias de se ler... :)
Debora Bottcher disse…
Querida,
Dias assim são um tormento, não? Todos temos deles, exatamente assim, com essa descrição perfeita. E sim: ouvir uma música predileta faz bem, assim como acreditar que amanhã vai ser diferente. Ainda assim, não consigo deixar de pensar que dias assim podiam passar por nós sem estacionar... :)
Super beijo.
PS: Essa imagem é linda. É de J.W. Waterhouse?

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