sexta-feira, 19 de junho de 2009

O HOMEM ABSURDO >> Leonardo Marona

É preciso enfim fazer a passagem, dar o passo curto resultado da mendicância vacilante na escuridão dos termos conhecidos.

Um romance pré-datado que fosse história sem explicações, mas não bem um romance, já que um romance trata de coisas concretizadas numa determinada ordem de tempo.

Um romance portanto sobre o não concretizado, sobre os momentos de hesitação em que sentimos a lâmina da faca no ventre e pressionamos ainda mais, e damos o passo contraditório na direção do absurdo.

Um romance sobre o peso fátuo do concreto nas veias, talvez sobre raposas presas nas armadilhas naturais da terra, a terra com minúsculo sobre a qual pisamos com dureza e fria coragem. Tudo tão arcaico quanto um homem nu sentado, refletindo diante do espelho de uma casa desconhecida.

Mas por que o homem nu, sentado? Porque é preciso admitir a idéia anacrônica de que ele estava à procura de si mesmo para avançar, seguir ao próximo erro com a delicadeza rude das crianças espantadas. E tudo já tinha sido dito milhares de vezes no passado. Mas a verdade é que não sabíamos pôr em uma só linha passado presente e futuro. Era tudo uma enorme seqüência de cenas já acontecidas dentro do nosso esquecimento ou até mesmo – e por que não admitir? – em vidas pregressas. De qualquer forma, podemos também admitir que não há o uno germinal, que une tudo, mas, para cada uno, um tudo germinal, que expande a unidade até chegar-se a dúvida, que é o esplendor.

Mas nada disso importa. De que vale viver? É a única questão pertinente e não à toa os parisienses são melancólicos até o osso. Não, esquecer. Engolir experiências inimagináveis, deixar-se guiar um pouco pela pele. A tese é a antítese do gene. Mas vale o silêncio revelador quase nunca atingido e somente possível através da subestimada fantasia. Fora dos berços fantasmas e da constituição do inferno. Fora também das veias concretas da filosofia que, partindo do pressuposto de que nada é provado, permite-se a tudo provar. O filósofo dizia que as coisas, elas não se explicam por uma única unidade de coisa mor, mas por todas as coisas. Como disse, nada disso importa mais agora, enquanto ainda estou dentro do redemoinho e forço a minha desatenção e isso torna mais agradável a passagem insegura. Agora nu, sem explicação, aqui estou eu e não sei mais como ponderar o que desejo e o que assassino por culpa transferida ao acaso. Aqui estou nu, deitado numa cama de muitos dias, como que à espera de algo indecifrável, que me mantém dentro dessa vil maquinaria de repetição até a nulidade completa dos sentidos. E de alguma forma existe a luta desequilibrada em que damos poucos socos, levamos muitos até quase darmos cabo, e de alguma forma arranjamos motivos ainda para sorrir sem dentes, acenar sem mãos, batizar sem fé. O mundo gira, é o que se sabe. E isso parece ter sido suficiente para a nutrição de toda espécie de genocídio. E de onde afinal vem esse repentino desejo de morte? De que mórbidas histórias nos alimentamos quando éramos crianças, pelo que apenas os olhos da individualidade vilipendiada podem sangrar? Desempenhamos diariamente a metafísica do humilhado. Em procura de algum sinal de algum nexo... Deveria ser possível abdicar do cérebro, essa massa maligna constituída de vermes, que só atrai o imponderável.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

"À procura de si mesmo para avançar, seguir ao próximo erro com a delicadeza rude das crianças espantadas." Tô nessa, Léo! :)