sexta-feira, 12 de junho de 2009

O MASOQUISTA >> Leonardo Marona

Começo sabendo que não estou preparado. De fato, é tudo o que sei, e isso não mudará até o final. Pensando bem, sabendo disso – e todos, no fundo, sabemos – me pergunto se deveria prosseguir. O que faz prosseguir? Desgosto, o chumbo nas idéias, o lodo na consciência. Este conhecimento não deve ficar impune. Portanto, abrir as janelas: a surda indiferença da solidão de um feriado de Corpus Christi. Penso: minha indiferença é sorridente – eis todo o mau. Se ao menos fosse nauseante, vomitariam aos meus pés, queimariam placas com o meu rosto, falariam de mim aos pés de ouvido, escondendo as orelhas com as costas das mãos. Sem ter o direito a nada disso, volto ao preparo, já que começar desse modo, assim, totalmente nu, me parece ultrajante. A vocês também – os amorosos – tenho certeza.

Agora começa a chover e isso nem bem é um conto de Raymond Chandler. Não há poodles, não há madames, não há néons falhos, garrafas de uísque, sangue. O som da chuva é de um anarquismo em volume progressivo, como uma escadaria russa. Os carros quando passam tentam dar realismo à cena, mas eles também não sabem para onde vão. Um ar amarelo de piada ruim cobre o apartamento de um cômodo. Estou aqui, não estou preparado. Dois parágrafos e isso é tudo o que sei.

Se não está preparado, penso, vá fazer algo para o que foi preparado. Há coisas a serem feitas, afinal: leituras importantes, crimes à luz de velas, há um mundo todo a ser desvendado, mexa-se agora! Patético. Minha náusea cheira mal e, no exato momento em que tomo conhecimento de mais este detalhe, percebo que a vizinha ao lado coloca uma música na vitrola. Vitrola, sempre aos feriados. Ela escuta Bee Gees. Eu detesto Bee Gees, que são como eunucos fazendo amor.

Fazer amor: está aí uma idéia inescapável que, no entanto, não podemos tocar. De repente a idéia um tanto comum de nunca ter amado me assusta e sinto ganas de dizer “sinto ganas”. Pronto, deveria ser o suficiente, mas, com Bee Gees tocando, nada é. A vizinha, será que ela dança enquanto escuta Bee Gees? Hoje li um escritor dizer que ser escritor foi sua segunda opção. A primeira era dançar como Fred Astaire. O que ele quer dizer com isso? “Vocês vêem, sou um embuste, mas, no fundo, minha alma é de poeta”. Não mais pobre coitado do que eu. Ainda rico. De onde virá a idéia de riqueza? De um merecimento por qualidade de espírito. Certamente que estamos muito longe desta que, talvez, tenha sido a primeira idéia sobre a coisa toda. Hoje dizemos: “Olha aqui, sou um sujeito CHEIO DE ESPÍRITO”. Dizemos alto, com convicção. Afinal, a riqueza estará condicionada aos que apresentam “qualidade de espírito”. Isso fica melhor entre aspas. Imagino o tal escritor, como ele dançaria: embriagado, quase gordo, com roupas sob medida e o rosto vermelho, na cidade com chão de paralelepípedos, onde será recebido com pompas para a feira literária internacional. Mas por que escrevi algo assim, se comecei decidido a, sinceramente, singelamente, dizer apenas: não estou preparado.

Disse tudo por causa da vizinha. Uma velha, verrugas, pigarro glacial, migalhas soltas pelo caminho, gritos de “puta, safada, ordinária, pusilânime" (vejam bem, pusilânime!) em direção à cadelinha Lucrécia. Saudades do comendador e do lanterninha do cinema, com quem aprendeu a roçar no muro. A chuva parou. A vizinha, eu podia vê-la descendo as escadas para o baile do clube finlandês em Penedo. Será que ela sabe, como eu, que não está preparada? Será que agora, sem dentes, com esse hálito quase infantil dos quase mortos, será que com Lucrécia “puta, ordinária, pusilânime” ela saberia mais? “Sai daqui! Fora! Não tem nada pra você aqui! Puta! Ordinária! Pusilânime!" Um cãozinho pequinês. Eu sei, Lucrécia, eu sei.

A chuva aumenta, ela é o açoite do ciclope tirano que recém acordou. Eu mesmo deveria esquecer de tudo, me preparar melhor, acender o cachimbo, espremer um olho, me enrolar no roupão, soletrar palavras com as mãos juntas atrás do corpo, andando pela semi-sala. Progredir numa carreira qualquer, conversar sobre as amenidades do coração, estudar as formas invisíveis, ouvir as massas famintas, ser violento, sorrir aos pobres, vestir camisas com mensagens de boa conduta, matar com carinho, burlar pequenas regras, ser o laranja do PT, ficar sem palavras diante do discurso óbvio, repeti-lo debaixo do chuveiro. Em suma: ser. Mas não apenas ser. Audácia desmembrar Shakespeare. Mas existe – ele saberia disso – uma nova questão.

Não posso, não posso, me resta andar pelo apartamento de um só cômodo. Virá a beleza com um copo de conhaque? Virá o bruto com a saliva bovina? Virá o literato com a mensagem de prêmio? Virá a décima sinfonia com a chuva ácida? Todos carregam uma espécie de câncer na garganta. Sentimos isso na troca infernal de olhares constrangidos quando nos esprememos no metrô. Estamos de baixo da terra e nos olhamos como quem diz: “Que vergonha encontrá-lo aqui, nesse estado, vestido desse jeito, rumo a um lugar que nem mesmo pode ver se aproximando”.

Podemos cometer o crime e aí está o mote de toda ação literária. Eu por exemplo, que agora acendo velas, estalo os dedos, vejo Paris pela janela, chamo os dez cavalos e começo a bater as teclas como pistões de um carro ancestral, de motor barulhento e boa aceleração, com alto consumo de combustível, um pouco pesado, mas, se bem limpo, formidável para curvas íngremes e quedas perenes. E num minuto nem sei mais sobre o que me jogo mas pouco importa, é preciso ouvir o ritmo que vem do longo estalo dos tempos, então bato firme nas teclas como o moribundo desesperado que acertaram pelas costas, o louco faminto, espasmódico por reconhecer de alguma forma a batida do próprio coração, dolorido a ponto de esperar pelo que – e isso ele já sabe – tardará além da conta pois o que não sabemos somos nós e, diferentemente do pensamento, temos pernas e nos puseram ainda sobre duas patas. Portanto as costas doem. A chuva, mais forte, mais forte, desempenha a Santa Inquisição.

Como num filme de Carlos Teodoro Dreyer, o júri entra no cômodo apertado. Carregam armas e pequenos animais de pluma. Onde é capaz de parar a criatividade inútil? Isso é algo realmente importante, difícil de saber. A vizinha finalmente cede aos encantos da realidade maquiada. É possível escutar a voz de Maysa Matarazzo, com as bolsas dos olhos inchadas, um sorriso triste porque, como muitos, tendo passado a vida toda falando de amor, nunca amou ninguém ou nada.

O final do feriado é uma vertigem aguda e somos todos pobres, de posses ou espírito, no frio atípico de uma cidade católica cheia de bundas químicas e batinas eretas, quinze graus lá fora e nenhum sentimento. Resta esperar pelos abutres, cortar o corpo em mil pedaços, arrancar com os dentes as vísceras, os olhos guardar nos bolsos, porque não sabemos para onde apontava o corpo de Cristo quando o perguntaram, não temos como saber, não sobra tempo, é preciso, um dia após o outro, não saber para continuar procurando e isso só pode, é claro, ser uma piada de mau gosto e, brancos ou pardos, de veias verdes, saltadas, os olhos fundos, de uma longa agonia, esperamos em silêncio o raio ou dilúvio que será nossa prova de que, enfim, algo faz sentido, de que existe algum movimento na direção de algo fatal, irreversível, sem direção. E a cada dia que não se realiza plenamente – porque simplesmente é preciso se contentar quando há pontes e penhascos e bilhões de degoladores sorridentes e cheios de bons votos – temos que nos inclinar mais, o tempo diz isso e não há o que se possa fazer. E os emburrados de poucas palavras não são de grande serventia: derrubaram das colinas os sábios delinqüentes. É o fim do período das mágicas, dos arquipélagos de marfim, da passada malandra de uma canalhice temática. Hoje é preciso funcionar e não sei como, não me sinto preparado. Sou um louco entre criminosos, estamos de mãos dadas, temos esperança, fazemos qualquer negócio. Estamos nos aviões que se perdem em alto mar, a cinco quilômetro de profundidade. Tivemos os corpos tragados, fizemos a viagem ruim. Vivemos onde padres galãs ficam milionários cantando músicas sobre deus e fazem sucesso com senhoras que, no fundo, gostariam de foder com deus. É preciso admitir tanta coisa, pensar e desistir de tanta coisa, que qualquer coisa serviria agora, qualquer luz de cozinha, qualquer bala de festim. I love Paris in the morning. Eu também, Maysa. Mas não sei, não posso, não quero continuar. Vou continuar.


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Um comentário:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, mais uma viagem fantástica ao submundo humano. Enigmática, profunda, perfeita!