sábado, 27 de junho de 2009

VALE QUALQUER RAIZ [Monica Bonfim]

E aí ela espalma a mão na testa e diz: "Ave Maria", com um sorriso entristecido. E isso três ou quatro vezes no meio da conversa, enquanto olha em volta com olhos ávidos para ver se alguém está olhando a cena e se interessa pela pobre moça sentada.

Desvia a energia inteira que tem para o chacra básico... E aí apresenta todos os sintomas da "aflixota" básica: caça (literalmente) um homem dentro de uma boate, abraça todos os conhecidos (gente que não a vê há séculos e nem sabe direito quem ela é) pelo prazer ínfimo que obtém com o abraço fugaz, se apresenta para gente que não a reconhece só faltando dizer o CPF do outro... É como se gritasse: me veja, me dê importância, me ame, por favor.

Se cerca de gente aflita e ansiosa porque tem que sair de casa, tem que ver a rua, tem que buscar um par. Gasta horrores com sapatos e bolsas, mas não compra um livro. Não dá uma volta no shopping sem sair com mil roupinhas, mas não vai ao cinema. Me contou 10 vezes a mesma coisa da viagem que fez ao Nordeste (exatamente o que deu errado) porque não tem assunto.

E não adianta eu mandar todos os textos que eu tenho sobre auto-estima, dizer que, pelos problemas que ela passou, teria que, no mínimo, fazer uma terapia com alguém competente ou procurar se dedicar a uma linha espiritual -- ou ambas... Ela prefere se fazer de vítima e tomar calmantes.

Pior... Considera uma meta todos os adereços ou roupas que eu visto, até minha comida, porque acha que eu estou "dando certo", tendo êxitos em minha vida pessoal. Então procura copiar, e ultrapassar, a minha casca.

Eu sei que já estive nesse mundo... Talvez num paralelo não tão brabo porque minha autocrítica grita mais alto, ou talvez meu orgulho, que era um substituto pobre para auto-estima, já que o risco da rejeição superava longe o prazer do abraço fugaz. Além disso, eu nunca tive grana para ficar comprando roupas e sapatos e coisas que tais só para suprir minhas carências... Comer era mais barato -- e aqui cabe uma risada.

Mas me dá uma tristeza tão grande ver alguém nesse estado, que vocês nem imaginam... E o único remédio para aflixota é auto-estima -- não tem outro, não tem jeito. Enquanto o toque físico for o que se acha que pode preencher o enorme vazio que se sente por dentro... Adeus. Vai-se fazer cenas em público, falar alto para chamar a atenção, grudar no primeiro pobre coitado que olhar, insistir em relações doentes, achar que o sujeito que está olhando pro outro lado se apaixonou perdidamente e tem gente que até acha que recupera amigos gays... ai, ai, ai.

O grande problema que fica é que a gente, que já saiu desse buraco -- sem trocadilhos -- sabe que só se sai sozinho, que o máximo que se pode fazer é tentar achar as palavras mágicas que vão conseguir dar um tranco na criatura... Aquilo que vai fazer ela despertar para o valor que tem.

O difícil é achar quais são essas palavras... O difícil é saber que, se as acharmos e se falarmos, a dor que vão causar (tranco só acontece com dor mesmo, não tem jeito) vai doer na gente também.



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4 comentários:

Cristiane disse...

Mônica, ainda não achei similar que substitua o pensamento de Artur da Távola (Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros) para situações como esta: "Quem tem vida interior jamais padecerá de solidão".
Rubem Alves também falou dela, a terrível solidão, num texto chamado "Solidão amiga" (http://www.rubemalves.com.br/asolidaoamiga.htm), talvez este valeria a pena encaminhar à sua amiga, mas sei que o tal 'clique' tem que vir de dentro e não de fora.
Um grande abraço!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tenho gostado da serenidade dos seus textos, Monica. Grato,

Kinha disse...

Cristiane... grata pelas sugestões mas no caso da personagem, só terapia mesmo. Inclusive eu comento isso no texto, face aos problemas que ela passou.

Eduardo, eu que agradeço.

Letti disse...

Sábia percepção, Moniquinha. Eu me amarrei na sua máxima: "orgulho, que era um substituto pobre para auto-estima". Genial isso. :)
Beijo grande!