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MOTIVO + AÇÃO [Sandra Paes]

Dia desses me peguei sondando a vida. Diante de todas as vitrines que a televisão, a internet, as lojas e toda a mídia abrem, me quedei parada. E uma parada seguida de um muxoxo, quase um enfado.

Passei a limpo as vivências dos últimos tempos - até porque muitas delas não alcanço mesmo -, lendo um parágrafo de um livro chamado “Mind”, em que o autor dizia que nossos sistemas de crença é que mobilizam o desejo.

Achei interessante o pensamento. E, é claro, quando algo me chama a atenção, tendo a parar para averiguar o que se passa em mim. Descobri que não ajo por agir. Lembrei-me de minha cara de sei-lá-o-que diante da janela da academia, onde todo mundo dentro de uma vitrine pedala, sua, levanta peso, na maior. E como as pessoas falam com um certo gosto que “malham” e até se explicam: faço pra manter a forma, faço porque preciso cultivar a saúde, faço porque gosto. Sou do tipo que não faz se não acredita. E esse axioma caiu feito uma luva - pelo menos para mim.

E comecei a me ligar nas atitudes das pessoas. O behaviorismo ficou mais presente. Essa corrente psicológica virou ciência e uma ferramenta de promoção de tudo ou quase tudo. Faz-se a propaganda, abrem-se crenças, vontades, desejos e isso gira a roda das ações. Todo sentido bem engrenado em tudo.

E a multiplicação de todas as ações, muitas vezes ocultando os motivos que as geraram. E o famoso “não sei por que fiz isso” não gera mais surpresa e até fica quase um lugar-comum.

O homem vai se distanciando a largos passos de si mesmo, me parece. O comando das rodas do “por que não” conduzindo tudo. A escolha fica como consequência dessa pressão quase que invisível sobre as mentes de todos e os pondo a se mover como os ratinhos de laboratórios diante do olhar perspicaz dos pesquisadores. Parece louco? Pode até ser para você, mas para mim esse verde já não ressoa como “verde que te quero verde” do Garcia Lorca.

Será que é isso mesmo? Ou se sai pra se divertir, para encontrar pessoas, para fugir de algo, para encontrar alguém, para consumir algo, ou a vida fica pa-ra-li-san-te. E cheia daquelas cobranças: “Você precisa sair mais, buscar algo para ficar feliz, porque essa coisa de viver isolada não é boa não.” Volta e meia ouço um ou outro comentário sobre isso, ou a tal semelhante frase: “Onde você anda que sumiu? Nunca mais te vi por aí...” É tudo tão igual que apenas sorrio. E a resposta regular e verdadeira: "Em casa."

Ando muito na minha companhia. E de tanto responder isso, percebi que minhas ações são para dentro mesmo. Me convidaram para fazer um workshop sobre uma nova técnica de cura e tal. Abro o site sugerido e assisto a um vídeo com milhares de pessoas num salão. Foi o suficiente para desistir de cara. Sair de casa para outra cidade para encarar uma multidão, seja num estádio ou no salão de um hotel, para falar sobre algo que não compactuo, nem pensar mesmo.

Seletividade sempre fez parte do meu caminhar nessa vida. E agora ainda mais. Não chego a ser partidária do Sartre achando que o inferno é o outro, mas o jogo dos encontros tem regras quase que pré-estabelecidas, onde o que se troca são ações sem motivos, claros ou não.

E ao declinar o convite para o workshop percebi mais uma vez que meus motivos não se coadunam com os das pessoas. Eu não costumo me mover por dinheiro, para me vender com caras e bocas, para caçar alguém com formato predesenhado, ou simplesmente para ver o que vai dar. E isso não é uma crítica, é uma constatação.

Saio para ir ao mercado porque tenho compras para fazer. Vou ao mall porque também tenho um motivo claro. Visito um amigo porque sinto saudade e quero o conforto de expressar meu afeto e trocar isso. Escrevo porque algo internamente mexe com meus neurônios e preciso alinhar as idéias e as emoções.

Talvez eu seja um tipo de bordadeira. Vou fazendo passo a passo a composiçao de meu trajeto e nem por isso sinto que vivo a vida totalmente. Ela sempre parece transbordar e minha taça é um pequeno cálice para delicados goles e apreciação lenta. Passei da fase da passionalidade - onde até o mergulho em águas revoltas era algo extasiante.

Hoje, olho para as águas tépidas da piscina e penso nos cabelos recém-tratados e exito antes de um mergulho. O ‘pra que mesmo?’ passou a me acompanhar quase que diariamente e me sinto mais leve e bem mais feliz assim. Até porque responder a todas às reações de cada ação praticada é muito cansativo e eu estou querendo saber como é ser irresponsável. Não ter que dar qualquer resposta passa a ser um motivo quase que silencioso.

Psshhhhh! Não espalha, tá?


Comentários

Anônimo disse…
Olá; interessante a crônica do dia, o que me chamou a atenção foi o fato da seletividade. Acredito que temos de ser seletivos no sentido de buscarmos o que mais gostamos e o que mais nos identificamos, mas obviamente também não podemos cair no pedantismo - o que não é o caso aqui -; quanto a Sartre acredito que o inferno é o que fazemos com o que o outro nos fez (se elevamos uma atitude a condição de problema) em seus desejos em projeções, aliás por falar em projeção, quase sempre colocamos tudo no outro. Quando você fala que anda muito em sua própria companhia, o mesmo tem acontecido comigo, tenho deixado ao longe os "15 minutos de fama" e os paetês;

Abraços
Marco
Juliêta Barbosa disse…
Sandra,

Texto inteligente! Sem retoques. Obrigada, por partilhá-lo. Assino embaixo.
Muito bom! Texto para carregar debaixo do braço! :)

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