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LEMBRANÇAS NUM SÁBADO DE SOL >> Sergio Geia

 


Hoje é sábado. São onze e quinze da manhã. De minha mesa enxergo as árvores do Ekobé douradas de sol. Balançam estapeadas pelo vento. Esse vento que dá as caras, que no instante seguinte desaparece para reaparecer depois. Agora, por exemplo. Ele sumiu. Vejo as árvores imóveis. O dia é claro, muito claro, mais quente que outros, não há nuvens no céu. Dá vontade de sair, de tomar cerveja no bar, fazer um churrasco e convidar a galera. De repente, uma lembrança foi puxando a outra. 
 
Eu acabara de sair da escola. Estudava no Anchieta. Meu caminho regular era voltar pela Pedro Costa, cruzar a Santa Teresinha, até a minha avó, na Professor Moreira, onde ficava esperando meu pai que vinha me buscar. 
 
De vez em quando eu parava na Santa Teresinha. Ali atrás da igreja tinha um vagão de trem verde claro. Pedia ao dono do vagão um copo de garapa. Debaixo de uma árvore, eu ficava a beber o caldo vendo o movimento. A vida marchava numa lentidão suave, a única preocupação que tinha um menino de nove ou dez anos era passar de ano. 
 
Certa vez encontrei um amigo da Professor Moreira. Ele tinha acabado de sair da padaria. Além de pães, trazia um embrulho cheio de pão de queijo quentinho. Lembro que podia sentir a quentura e o cheiro dos pães. Entre uma mastigação e outra, ele me ofereceu. Embora atiçado pela vontade, recusei. 
 
Nem sei o motivo. Talvez bestices de criança. No entanto, passei tempos depois sentindo o cheiro do pão de queijo todas as vezes que eu cruzava a praça. 
 
Do Anchieta, fui parar no Municipal. Era aula de matemática. A matéria de difícil compreensão cindia a minha cabeça. Lembro-me que pedi à professora para ir ao banheiro, eu precisava de um respiro. No banheiro, lavei rosto, procurei esquecer um pouco a aula. 
 
Dias depois os colegas me passaram os detalhes: eu desmaiei na sala de aula. Dei um grito e caí. Minha língua enrolou, puseram um lápis na minha boca. Só me lembro de ouvir uma voz dizendo “é aqui que é a casa da vó do Serginho?”. Era o professor Laércio, batendo na casa de minha vó. No carro, eu começava a ter os primeiros lampejos de vida. 
 
Foi no Municipal também a minha primeira paixão. Quando a vi fazendo ginástica, eu me apaixonei, chamei de amor à primeira vista. E desde então meus olhos só enxergavam ela. Era uma vida que do dia para noite se embelezava de cores e sentido, tudo de repente ficou mais interessante. 
 
No melhor jeito infantil, optei por revelar o meu amor através de uma carta, outra bestice de criança. Por intermédio de amigos fiz com que a carta chegasse até ela. Não namoramos, sequer ficamos, nem nunca nos falamos. Disseram que a carta foi rasgada em milhões de pedacinhos e terminou num cesto de lixo. Eu nunca vi.

Comentários

Sylvia Testa Braga disse…
Sérgio, gosto muito.de suas crônicas.
Leio com carinho e essa que li adorei, sabe porque , aconteceu comigo também.
Essas paixões de tempo de escola.
Mas adorei recordar a sua experiência e com isso lembrar da minha também.
Acho que muitos que lerem vão voltar em algum ponto do passado .
É recordar é algo delicioso de sentir, parece que voltamos no tempo.
É isso é muito gratificante.Parabens.e obrigada. Adorei.