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VOU TE CONTAR >> Sandra Modesto


Eu não vou te contar sobre o agora. Estou farta de tantas notícias tristes. Prefiro o passado cravado em mim. 
 
Desde menina eu inventava histórias. Antes de ser alfabetizada lá estava eu. Meio arredia, criando meus mundos particulares. Quando eu fui pra escola no final dos anos sessenta, existia uma cartilha. Horrorosa por sinal. Era um alfabeto sem eira nem beira. Fui reprovada. Eu não conseguia... 
 
Que merda de cartilha era aquela? Bom, no ano seguinte, consegui avançar pra o livro (livrinho) com algumas bizarrices, mas tudo bem. No atravessar do tempo, quarta série do ensino Primário, a professora levava uma gravura para aguçar nossa imaginação. A ilustração como referência na escrita. 
 
Quando a professora Juventina (minha professora maravilhosa), perguntava: 
 
— Quem já terminou? 
 
— Eu! 
 
As professoras de Português sempre gostaram dos meus textos. E isso foi no ensino Primário, no Médio e na graduação em Letras. 
 
Uma vez, na sétima série, a professora pediu que levássemos na aula seguinte, uma redação sobre o cantor que gostávamos. 
 
No dia da aula: 
 
— Sandra, você quer ler sua redação? 
 
Eu abri o caderno e li sobre Rita Lee. 
 
A verdade é que eu não tinha feito tarefa. Como assim? Eu inventei a história. A folha do caderno estava em branco. 
 
Terminei de ler minha mentira e a professora disse: 
 
— A Rita Lee tem mais de quarenta anos 
 
Eu não fazia a menor ideia da idade da Rita. Ainda bem que a professora não quis pegar meu caderno pra corrigir. A aula terminou e eu fiquei aliviada. 
 
Com o avançar das marcas, meu amor pela literatura tomou conta do meu corpo. Aos dezessete anos, eu rascunhei um texto num caderno. Meu texto tinha título: Domingo 
 
Guardei na minha gaveta. Em outubro de 1983, a Secretaria Municipal de Educação e Cultura lançou o concurso de contos- LUZES DA CIDADE. 
 
Dez meses depois, o carteiro entregou uma correspondência endereçada a mim. Abri. Um convite para a cerimônia dos contistas selecionados do concurso. Mas... 
 
Revelação de Pseudônimo 
 
“Os contos foram inseridos tal como foram encaminhados ao Concurso de Contos, mantido inclusive o pseudônimo com que o autor se inscreveu”. O “conto” “Domingo” foi afastado da premiação, uma vez que a autora, no original enviado, revelou seu nome. Pela qualidade do conto, contudo, a comissão sugeriu a sua publicação” 
 
Eu lá sabia que tinha que inventar um nome? Meu conto na primeira página da revista foi um prêmio no meu coração. 
 
Domingo foi publicado com uma alteração inicial, no meu primeiro livro em 2015. Coletânea de contos, crônicas e poemas, editora Kazuá. 
 
Quanto aos contistas da revista- LUZES DA CIDADE, infelizmente, dois morreram nos anos noventa. Um deles, um amigão da faculdade. Outro foi meu professor. 
 
 
*P.S: Gosto de Rita Lee e pedi de presente no natal de 2019, a autobiografia dela. Com crônicas escritas por ela e umas fotos lindas. Recomendo o livro. 
 
 
imagem: https://pin.it/2thRzGv -

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Que lembranças maravilhosas, Sandra! E uma crônica levinha e feliz (apesar das perdas)
Sandra Modesto disse…
Obrigada, Zoraya. Seu comentário é muito importante.
LAERCIO HUMBERTO DA SILVA disse…
É uma bela crônica que nos remete às lembranças escolares de infância. Me recordo dessa cartilha que realmente era muito chata e também das "mentiras" que usávamos para fugir dos castigos escolares.
Albir disse…
Que interessante, Sandra! Depois, mostre-nos o "Domingo".
Sandra Modesto disse…
Obrigada, Albir. Depois eu mostro o conto. Bjs 😘
Clara Braga disse…
Fiquei curiosa para ler o Domingo!
E adorei poder te conhecer um pouco mais!