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POR OUTRO CAMINHO >>> Nádia Coldebella

Terça-feira, dezessete de março de 2020, dezenove horas e dez minutos. Dez minutos a mais no meu trabalho, dez minutos a menos com minha família. Milhares de minutos a menos da minha vida, que me foram roubados, como quase todos os dias, nos últimos anos.

Levantei-me impaciente da cadeira e pus-me atrás dela. Empurrei-a para frente. Meus olhos pousaram sobre a papelada espalhada na mesa. Não era uma bagunça. Naquela ordem caótica, eu já havia elegido as urgências para a próxima semana.

Fiquei parada, em pé, atrás da cadeira por alguns segundos. Meu pensamento estava confuso. Precisava organizá-lo para conferir mentalmente os itens que deveria levar para casa. Mas apenas virei a cabeça para direita e para esquerda, e tentei me convencer de que realmente examinava todos os objetos daquele cenário. A verdade era que aquele movimento servia apenas para alívio momentâneo da minha consciência que só me pedia para ir embora logo.

Peguei a minha bolsa e a coloquei sobre o ombro. Não me preocupei em observar se ela estava aberta ou fechada, não me importava. Resolvi empilhar alguns papéis para ver a mesa mais organizada quando chegasse a segunda-feira. Na próxima semana eu deveria trazer canetas melhores, já que as dadas pelo Estado eram uma porcaria.

Em passos rápidos, três ou quatro deles, não muito longos, venci a distância que me separava do corredor. Saí da sala e fechei a porta, girando a chave. Ainda não a havia tirado da fechadura e um pensamento, pronto para me atrasar, atravessou a minha mente: "Será que apaguei a luz?". Abri a porta. A luz estava acesa. Olhei para frente e vi a janela pela primeira vez naquele dia. Ela estava aberta. "Vai chover no fim de semana". Caminhei até ela, fechei-a e arrumei as cortinas cuidadosamente.

Voltei-me para a porta e apaguei a luz. Girei novamente a chave e comecei a andar pelo corredor. No quarto passo parei. “Será que o celular está na bolsa?” Fiquei ali plantada, com a bolsa na mão, procurando o aparelho que obviamente não estava lá. Suspirei, um pouco ressentida. Dei meia volta e mais uma vez abri a porta. Acendi a luz. O celular estava tocando, irritantemente, em cima da mesa. Era meu esposo. Resolvi não atender. Ainda tocava quando o guardei na bolsa.

Saí o mais rápido que pude e fechei a porta, mas antes de girar a chave lembrei que não havia apagado a luz. Abri a porta novamente, apaguei a luz, fechei a porta e a tranquei. Fui andando vagarosamente pelo corredor, agora sim conferindo tudo mentalmente: luz apagada, celular na bolsa, computador desligado, janela fechada... e o ar condicionado?

“Posso ignorar”, pensei. Resolvi voltar mais uma vez, pois seria mais fácil enfrentar o atraso do que passar todo o fim de semana preocupada com o ar condicionado. Não queria ser a culpada por botar fogo naquele prédio (se bem que na atual conjectura das coisas, isso não me pareceu uma má ideia). Voltei. De passos arrastados. Me sentia muito cansada. Abri mais uma vez a porta e pude verificar, para o meu desapontamento, que o ar condicionado estava devidamente desligado. Fechei a porta pela última vez naquela tarde.

Terça-feira, 15 de setembro de 2020, dezenove horas e dez minutos. Respiro. Olho em volta. Ainda não preciso voltar. E não quero.

Penso em gente, flores, aquarelas, mistérios, universos. Penso em tinta, cores, telas, letras e palavras. Penso que as coisas acontecem em níveis, que a vida segue seu curso e que tudo é perfeitamente natural.

Ironia da vida, penso com certa leveza, mas vejo muito peso em mim. Tem uma vaidade que não conto pra ninguém e muitos apegos, que pouco a pouco pretendo soltar. Eles doem.

O desconhecido não me assusta, a mesmice sim. Descobri que muita coisa mata, infarto, AVC e acidente, mas nada mata mais do que o passado.

Com vários minutos da minha vida meio que recuperados, decidi que não quero mais perder nenhum. Só não sei como. Espero encontrar um caminho.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Veludosa Nadia, nem sei dizer o QUANTO me identifiquei com vc hoje. E meu coração falhou algumas batidas. Esse texto vai me assombrar...
Albir disse…
Quando encontrar, conte-nos!