Pular para o conteúdo principal

ROUBOU-ME DE MIM [Ana Maria González]


A aula terminara antes e eu teria um tempo a mais. Mas, antes de me por a caminho do ponto de ônibus, saí em busca de uma pessoa que eu tinha mantido na memória durante o tempo da aula. Uma personagem inesquecível.

Pela rua de apenas duas quadras, o movimento era grande, talvez ainda maior do que quando eu chegara. Os passantes tinham que disputar espaço entre os jovens estudantes espremidos nas calçadas. Não havia aula? Parecia que a população das faculdades estava toda lá sob o céu claro de uma noite de clima ameno. As salas estariam vazias? A opção de ficar fora das salas de aula era um gesto próprio dessa geração, uma rebeldia? O exercício da liberdade?

Eram jovens com copos nas mãos e cigarros nas bocas, tão semelhantes nos olhos, nas roupas, em seu momento de vida. Alguns com camisa de escritório, a maioria com camisetas coloridas e tênis. Aquele com tiara escura a se misturar nos cabelos alisados com algum creme. Muitas mochilas às costas. As mulheres com sapatilhas, saias curtas e cabelos longos e lisos. Todos permaneciam em pé ou sentados em alguma mureta, encostados onde fosse possível. Estavam em grupos, mas de certa perspectiva era uma multidão ao longo da rua.

Imaginei minha personagem ainda no lugar em que o havia visto ao chegar para a aula. Não, não estava lá. Não o vi mais. Era um anjo encostado em um vão entre uma parede e a porta fechada de uma loja. Um jovem cristo de olhos de água. Alto e magro, de cabelos claros levemente cacheados, longos, quase nos ombros. Com um copo na mão, olhava para a rua e pude perceber não mais do que quatro acordes de uma malevolente toada de jazz que ele cantarolava (ou chorava?). Quisera de novo o som de sua voz, a melodia interrompida. Quisera de novo a doçura de sua figura que brilhava nessa hora escura da noite. Ele tomara de mim a respiração, a mente e a visão que ficara empanada.

Entre os quepes de todos os tipos, calças de todos os modelos, havia fumaça com cheiro de maconha a céu aberto. Havia bitucas lançadas no chão. Havia um trânsito intenso. Era uma quarta feira e fogos de artifício anunciavam algum jogo de futebol. Bandeiras do time do coração, pelas janelas de um carro, promoviam um espetáculo: o exibicionismo da paixão. Acontecia um jogo de cartas na esquina com quatro senhores de idade, sentados em banquinhos. À sua volta, uma pequena audiência, por certo fiel, observava. Dando palpites ou apenas torcendo?

Mas, faltava aquela pessoa saída de uma página amarelecida pelo tempo, quiçá de um filme dos anos cinquenta, que permanecia em minha memória, quiçá para sempre instalada em um desejo inenarrável.

Quando me percebi, quase extasiada, vi que o conjunto da cena havia me roubado de mim. Era um palco e muitas sensações. Eu balançava entre a memória de meu personagem e os pensamentos dos jovens, os gestos vazios, as palavras ao léu, as baforadas e tragadas de cada um dos cigarros. Carregava a ansiedade dos torcedores nos carros, sua alegria e o colorido dos símbolos. Sentia curiosidade pela próxima carta de baralho a sair do monte de um jogo de esquina. E a personagem central, ele, arrebatara meu coração como se eu o amasse assim de repente para todo o sempre, sem possibilidade de happy end.

De mim sobrava quase nada, apenas um vazio sem importância perante a riqueza daquele pedaço urbano. Eu era o barulho, as formas, as figuras daquela rua, eu era só isso. Eu era naquele instante fugidio uma rua com a extensão de duas quadras e toda a sua população. Roubara-me os sentidos, a identidade, a alma. Era uma presença física experimentando sensações de que não poderia nem queria fugir. Eu era aquelas personagens, com os olhos claros de água e melodia de quatro compassos em voz de anjo, na grande cidade em uma noite clara de clima ameno.

Comentários

Zoraya disse…
Ana! Que belíssima crônica!Uma joia. Essa é para se guardar. Muito obrigada pelos momentos que passei lendo.
Ana González disse…
Zoraya, obrigada, bjss.
Isadora Sousa disse…
Isso me rouba o tempo,realmente essa crônica é fantástica,maravilhosa,esplendida,Parabéns.
Anônimo disse…
ANA,


Que texto lindo, emocionante de ler , de sentir,só mesmo alguém com sua sensibilidade pode transformá-los em palavras tão belas e conteúdo pefeito. Adorei! Grata por compartilhá-lo comigo.
Ereni Tinoco
Ana González disse…
Obrigada , Ereni querida! Bjss

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …