sexta-feira, 12 de abril de 2013

ACREDITAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO >> Zoraya Cesar

Era um incrédulo, um incréu, um infiel. Não chegava sequer a ser um agnóstico, mas chegava às raias do deboche. Não viessem ter com ele conversas moles sobre religião que Otavio, com argumentos cortantes e definitivos, expunha a pessoa ao ridículo.
 
Desconstruía o interlocutor camada por camada, até demonstrar que o coitado tinha apenas uma pátina de religiosidade e, no fundo, nenhuma fé.
 
Não fosse ele também – ah, as contradições humanas – um homem sensível e caridoso seria um chato insuportável.
 
Sim, Amigos, vocês leram direito. Otávio era um homem caridoso. Ajudava campanhas de auxílio aos pobres, era motorista dos amigos que, de madrugada, serviam sopa aos moradores de rua. E por aí vai.
 
Mas, nesse mundão de meu Deus, além da esposa Vilminha, cardecista de carteirinha, não havia mais ninguém que Otávio respeitasse? Havia sim, e pasmem, era o cunhado. Ah, dirão vocês, também um tantinho incrédulos, o cunhado? Sim, e digo mais, o cunhado era umbandista, incorporava entidades diversas. Pior, para aumentar o espanto do nosso amigo ateu, o cunhado era cientista famoso, especialista em fractais (nem ouso explicar o que é isso). Que Deus é esse, brincava Otávio, que me colocou numa família de malucos, onde uma recebe mensagens de gente morta, e outro recebe gente que não existe.
 
Um dia, porém (torno a repetir, tem sempre um dia que...), Otavio acordou todo troncho, curvado, só conseguia andar meio que manquitolante. Pegou um táxi, mas, quando parou na porta do hospital, tudo passou, ficou novinho em folha. Praguejando, aproveitou o táxi para ir ao trabalho. No meio do caminho, a boca entortou, as pálpebras caíram, o tronco caiu novamente. Ele começou a suar frio, tinha uma reunião importantíssima, como chegar desse jeito? Do espelho do retrovisor, o taxista assistia àquelas transformações dignas de O Médico e o Monstro e balançava a cabeça.
 
Chegando ao destino, Otavio voltou ao normal. Deve ser estresse, pensou. O taxista se despediu dizendo:
 
O senhor tá com encosto, doutor, procura um centro espírita, fazer um descarrego desses irmãozinhos perdidos. – Não vou dizer o que Otávio pensou sobre a progenitora do motorista.
 
Ao final do dia, Otavio começou a se comportar e a falar de maneira esquisita. Era “izimifio” pra cá, “suncê” pra lá, o corpo novamente meio curvado. A sorte, a sorte mesmo, é que o pessoal achou que era mais uma das pândegas de Otávio desfazendo religiões.
 
De lá mesmo correu para uma emergência. Quando lá chegou, claro, já estava normal. O doutor ouviu tudo, pediu três tomografias, duas ressonâncias, quatro páginas de exame de sangue, fezes, urina, outros, receitou um tarja preta, deu o telefone de um colega psiquiatra e mandou Otavio para casa.
 
Onde chegou com uma enxaqueca de derrubar poste. Dizem que a enxaqueca, quando muito forte, provoca estranhas reações nas pessoas. Talvez por isso Otavio vislumbrou vultos andando pela casa e pensou ouvi-los conversando. Começou a chorar. Estou ficando maluco ou vou morrer de derrame. E, de repente, passou. Tudo. Aliviado, ele decidiu que era hora de pensar em tirar férias.
 
Infelizmente, nos dias seguintes a situação se repetiu, corpo torto, cabeça meio caída, andar sofrido, fala esquisita, e, de repente, tudo normal. E, ao final do dia, a mesma enxaqueca, os vultos, as vozes. Os exames nada demonstraram e o psiquiatra, logo na primeira consulta, cogitou em internação. Otávio já estava mesmo apavorado de ficar assim o resto da vida. Até que, cansado de ver vultos, ouvir vozes e das insistências de Vilminha, ele sucumbiu e resolveu conversar com o cunhado.
 
Este, por sua vez, não conversou. No dia seguinte pegou o renitente Otávio e o levou ao centro espírita. Não obstante todas as coisas estranhas que vinham lhe acontecendo nas últimas semanas, os exames médicos inconclusivos e o psiquiatra parecer doido de atirar pedra em avião, ainda assim Otavio sentia-se desconfortável em estar ali. E se alguém o visse? Logo ele, o ateu incorrigível? O destruidor da fé alheia? Sentia-se também um tanto ridículo. Em que aquela gente esquisita poderia ajudá-lo, quando nem os maiores especialistas tiveram sucesso? Deixei-me levar pela histeria, pensava, devia ter saído de férias, isso sim.
 
E começou a ficar rabugento e inquieto. Onde estava o cunhado? Queria ir embora. Sentou-se sob uma árvore, mais uma vez se perguntando como pessoas inteligentes se prestavam a esse tipo de comédia. E lançou um desafio ao ar: se um homem grisalho, um olho vesgo, carregando um gatinho no colo, passasse por ali, ele acreditaria no inacreditável.
 
 
Bem, Amigos, agora a escolha é de vocês. Acreditar ou não é sempre uma opção. Pois o fato é que, mal terminara a frase, um senhor exatamente igual à exigência de Otavio passou por ele, parou, sorriu, e disse:
 
- Acredita, agora? Pode ir para casa. – E foi embora.
 
Alguns minutos depois, o cunhado o encontrou conversando animadamente com um dos diretores do centro. Levou-o de volta para casa espantadíssimo, nunca vira alguém se livrar de obsessores sem antes passar pelo descarrego.
 
Otávio chegou em casa, chamou Vilminha e disse: - Separa todas as minhas roupas brancas e desmarca o churrasco da semana que vem. No próximo sábado temos trabalho no centro do seu irmão.
 
Como disse, acreditar é sempre uma opção. Nem todos a escolhem, porém.


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7 comentários:

Ana Luzia disse...

ah, meu amor, acreditar é, sim, uma escolha...

enxergar os motivos para acreditar é que é mais, é um privilégio...

entregar-se ao que se crê e confiar é o que chamo de fé, é onde se encontra a paz...

nem sempre conseguimos reunir os três estágios em um só momento da vida...

lindo, como sempre! obrigada por este exemplo de vida, vem bem a calhar...

bj,

Ana

Erica disse...

Hahaha... isso me fez lembrar a homilia da missa do domingo passado... o padre falava exatamente de Tomé... e disse que as pessoas deveriam ter mais fé e quando o marido dissesse "vou parar de beber amanha", a mulher respondesse "eu acredito em você, meu amor" e isso surtiria melhor efeito do que se ela dissesse "duvido! você já disse isso milhões de vezes". No dia seguinte, Beatriz me disse uma coisa do tipo "acredita que eu faço isso?" e eu respondi "sim, eu acredito" e ela me respondeu "você escutou o que o padre disse, direitinho"... E pelo visto ela também rsrsrs Ter fé normalmente é uma questão de escolha, mas pode fazer muita diferença. Valeu, querida! A história foi ótima! bjs

Cecilia Radetic disse...

Zo,adorei! Como disse Érica, é preciso ter fé: em nós e no outro...

Anonimus Assustadus disse...

Como crente que tem fé de mais - às vêiz, depois dum banho de descarrego, fé de menos! -, eu acredito inté no Saci Pererê. Mas donde que suncê desencavô esse tal desse homi zarôio dum zôio só, mizifia? Fiquei inté arrupiado, sô!

Yasmin disse...

Amiga, adooreeei...delícia de leitura, alegre e profunda, que nos convida a tantas reflexões!
Obrigada...yasmin

albir disse...

Zoraya,
mais um texto divertidíssimo. Talvez eu discorde de a fé ser uma opção. Acho que há outros elementos na formação do acreditar, além da vontade. Beijo.

Mauro disse...

Otávio me lembra de mim!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk