domingo, 14 de abril de 2013

HISTÓRIA DE PESCADOR >> Whisner Fraga

Gosto muito de pescar, acho até que já escrevi isso aqui outras vezes. Não que eu saiba a isca adequada para cada tipo de peixe ou seja perito em luas, marés, cardumes e anzóis. Meu negócio é jogar a linha na corrente e esperar que algo aconteça. Enquanto isso, os ruídos da natureza me acalmam. O rio Tijuco testemunhou
muitos desses meus pensamentos e de seu leito tirei muito piau e cascudo.

As pessoas não acreditam muito, portanto, quando eu digo que não gosto de água. Certa vez, eu trocava uma chumbada às margens deste rio que banha minha cidade natal, quando escutei alguém gritando. Era um moço que estava sendo arrastado pela correnteza. Eu vi que o sujeito submergia e voltava, os braços erguidos, tentando respirar. Várias pessoas o seguiam pelo barranco, alguns ensaiavam palavras de ânimo, mas percebi que a coisa estava feia. Ninguém podia fazer nada pelo rrapaz. Se não encontrasse nenhuma pedra pelo caminho, teria chances de sobreviver. Mas achou uma danada, bateu o peito na rocha e foi ancorar morto uns dois três quilômetros abaixo. Foi uma coisa chata de se presenciar.

Não sei se o ocorrido contribuiu com meu temor, mas evito nadar em piscinas muito fundas, em oceanos ou rios. Mineiro é espécie desconfiada e minha parte venho tentando fazer para não dar sopa ao azar. Mineiro é bicho contador de história e o ouvinte escolhe o tema: basta alguém prestando atenção para que a noite seja curta para tanto causo. Eu tenho quase certeza que estou me repetindo. Tenho a impressão muito nítida de ter tratado de todos esses assuntos. E mais: estou quase certo que o relato a seguir já foi narrado em algum outro momento. O jeito é tentar contá-lo de uma maneira diferente. Vou tentar.

Uma vez que estamos neste assunto, voltávamos do rancho, eu, meu cunhado e mais dois ou três amadores. Todos sabem que mineiro tem dois carros: um para a pescaria e outro para ficar na garagem. O primeiro é, normalmente, um veículo bem antigo e o segundo nem tanto. Vínhamos, portanto, em um Chevette 1976, o que significava, na época, 150 mil quilômetros rodados e vinte e poucos anos de uso. Havia um trecho curto de rodovia estadual a percorrer, de modo que a lei e a ordem não eram grandes problemas para nós. Mas neste dia um policial inexperiente resolveu nos parar. Descemos, para que ele pudesse inspecionar o veículo. É claro que faltava, desde o extintor de incêndio até o farol traseiro. Conversa vai, conversa vem, e ele chegou à conclusão que era melhor nos liberar para que não causássemos maiores problemas. Prometemos ir a setenta quilômetros por hora e juramos que faríamos uma revisão no Chevrolet no dia seguinte.

O problema foi na hora em que meu cunhado tentou virar a chave. Nada. Nem um barulhinho sequer. A bateria entregava os pontos. Chamamos o guarda e comentamos que se deixássemos o automóvel ali, dificilmente retornaríamos para resgatá-lo. Pedimos, com educação, que nos ajudasse a empurrar a máquina. Solícito, o representante da lei e da ordem veio em nosso auxílio e, ao ver que sujava as mãos, o uniforme e as botas, desabafou: antes não tivesse parado vocês.

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