segunda-feira, 8 de abril de 2013

MEMÓRIAS NÃO REVELADAS VÃO AO BORDEL II >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação)


Não se pode dizer que foi uma escolha, já que Dasdô era a única disponível. Ele não costumava frequentar esses lugares. Desespero e solidão o tinham levado ali. Quando perguntou o preço, Dasdô disse que dependia. Combinaram cinquenta reais. Dedicação e boa vontade não a ajudaram a entender o que ele dizia. Ela pensou que se sairia melhor com as mãos, mas ele não queria, e reagiu quase com violência.


- Para de palhaçada, já não tá ganhando o teu dinheiro?


- Calma, Seu Nicolau, só tô fazendo o meu trabalho. O senhor não quer, eu fico parada. O dinheiro é seu e o senhor gasta como quiser.


Quando o viu com raiva, Dasdô teve quase certeza de que o conhecia.


- O senhor não me é estranho. Acho que já ficou comigo antes, ficou não?


- Eu nunca entrei nesta pocilga, moça, até hoje.


- Então deve ter sido da rua. Antes de vir pra cá eu passei uns tempos trabalhando na rua.


Ele continuava de mau-humor, e ela resolveu voltar pro assunto dele.


- Seu Nicolau, pelo menos o senhor era respeitado, fazia coisas importantes. Olha nós: as mulheres só faltam nos cuspir na rua. A polícia só quer comer e bater na gente. Eu não tenho família, mas as outras meninas foram expulsas de casa e os filhos têm vergonha delas. Eu queria ter essa vida do senhor.


Deu resultado, ele voltou a falar:


- Antigamente eu era convidado para mansões e clubes, hoje a minha vida não é diferente da sua. Vivo na sombra, ninguém quer saber de mim. A mulher que gostava tanto das roupas e das festas de madame, agora finge que não me conhece. Os filhos não querem que ninguém saiba quem é seu pai. De vez em quando os antigos chefes me mandam umas migalhas, como se eu fosse uma puta.


- O senhor tá falando mal da gente também, seu Nicolau? Que nem os outros, é?


- Não minha filha, eu não tenho nada contra você. Eu tenho é pena de nós dois.


E, num gesto mesmo de pena, segurou a mão de Dasdô sobre a mesa. Ela correspondeu, apertando-lhe os dedos. Mas ele retirou a mão bruscamente. Não queria sentimentalismos. De novo ela pensou que já o conhecia.


- Eu estou pagando só pela companhia, não precisa fazer nada. Nem falar, se não quiser. Difícil pra mim é a solidão, porque com ela vêm os pesadelos.


- A gente também é muito sozinha, Seu Nicolau. Pode ficar com dez clientes na noite, mas na hora de dormir é sozinha de doer o coração. E eu também tenho umas visagens ruins. Acordo chorando sem motivo. Deve ser culpa, por causa dessa profissão de pecado.


Dasdô sabe que esses pesadelos reforçam a crença geral de que é doida mesmo. E ela também acredita nisso porque, de vez em quando, acorda aos gritos. No início as pessoas corriam para acudir. Ela falava dormindo: de pau-de-arara, de choques, de estupros com cinco ou seis homens. Não sabe muita coisa do seu passado. Diz que sua cabeça é como uma parede branca, a parede do hospício. Sabe que ficou lá por mais de quinze anos. Os médicos diziam que tudo foi apagado por trauma. Antes de ser internada só lembra que era estudante, que ficou escondida. Lembra de passeatas e reuniões. Mas, por mais que vasculhe a cabeça, não encontra nada de família ou de amigos. Saiu quando a instituição foi fechada na reforma antimanicomial. Ficou nas ruas por algum tempo. Quando não aparecia cliente, dormia no banco da praça. Até que lhe indicaram esse lugar. Aqui todos gostam dela. É doida mansa, dizem. Querem ouvir sua história, mas ela diz que não tem história. Só uns pedaços.


Olhou para Nicolau e viu que ele também mergulhara nos próprios pensamentos. Nem a conversa tava rendendo. Não gostava disso, era honesta, queria falar que ele estava jogando dinheiro fora, mas tinha medo que ele se aborrecesse de novo.


(Continua daqui a 15 dias)


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