quarta-feira, 10 de abril de 2013

SOBRE ACUMULAR PESSOAS >> Carla Dias >>

Minha mãe disse, em uma dessas conversas em que concluímos a mesma com alguma frase que resume tudo, que “a vida é isso... um acúmulo de pessoas”. Tenho de concordar com ela, até porque falávamos sobre o nascimento da sua bisneta (ok, sim... tornei-me tia-avó), em uma família tão grande que há primos que nem conheço.

Fiquei pensando sobre esse acúmulo de pessoas, que não é apenas de familiares, mas também de amigos, de colegas de trabalho, de companheiros de jornada ocasionais. Eu sei... Você acumula coisas, cargos e não pessoas. É isso o que você vai pensar ao ler esta crônica. Vai dizer que imaginou um monte de pessoas apinhadas num canto da sua sala, coisas do tipo. Mas a verdade é que acumular faz parte da essência do ser humano.

Talvez não seja a palavra mais palatável para descrever o que quero dizer, mas acredito que seja a certa para o assunto. Pense no seu perfil em redes sociais. Quantas pessoas fazem parte dela? Com quantas você realmente mantém um relacionamento? E não digo pessoalmente, porque muitos de nós mantemos sincera amizade com pessoas que só conhecemos virtualmente. Quantas são apenas lembranças de momentos agradáveis em alguma viagem? Quantas você não faz ideia de quem sejam? Quantas acabaram ali por causa do trabalho?

Nós acumulamos pessoas, e não apenas as redes sociais mostram isso. Algumas vezes, melhor, em determinados momentos, dependendo da nossa necessidade emocional, tratamos quase desconhecidos como amigos de longa data. Convidamos para nossas festas pessoas que talvez se tornem mais que conhecidas do ponto de ônibus. E isso é válido e normal, tem a ver com o nosso desejo de nos conectarmos. Com a loteria que é conhecermos pessoas que estarão por perto durante toda a nossa vida. 

Agora, pense sim no sentido claro da palavra. Acumular gera um problemão, porque esgota qualquer um. Em determinado momento, respirar fica difícil, a gente se sente preso nesse universo em que tudo parece exagerado, em que temos de lidar com problemas com pessoas que nem fazem parte da nossa história.

Chegou a hora de desapegar.

Desapegar não é fácil, ao menos para mim. Eu sempre fico com a sensação de autora de abandono, de que não estou fazendo o melhor para aquela pessoa, sendo a melhor pessoa para aquela pessoa. Os meus desapegos, frequentemente, chegam acompanhados de algum evento nada bacana, um daqueles desfechos em que você para e diz: por que estou perdendo meu tempo dessa forma?

Eu entendo o que minha mãe disse, e no contexto da conversa, foi mais bonito do que parece. Com a família grande que temos, chegamos àquele ponto em que fica difícil estar ali sempre para todos. Lamentamos, mas ao mesmo tempo compreendemos. Neste caso, o desapego é pela ideia de que é possível estar presente na vida de todas as pessoas as quais queremos bem.

Eu sei que ainda chegarão muitas outras pessoas, que a acumulação será digna de show de diva pop. E que haverá sessões de desapego até. Assim como compreendo que esse é o jeito de a vida nos fazer escolher não apenas o nosso caminho, mas aqueles que seguirão conosco.

carladias.com

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