terça-feira, 9 de abril de 2013

O QUE É INCAPAZ? >> Clara Braga


Depois de um fato um pouco chato que aconteceu durante essa semana, me peguei pensando no significado da palavra incapaz. Segundo o dicionário, a palavra significa simplesmente alguém que não se encontra no estado de fazer alguma coisa. Até ai tudo bem, desde que você entenda que esse estado de incapacidade não é necessariamente um estado fixo, por exemplo, eu sou incapaz de pular de paraquedas, porque morro de medo de altura. Talvez, se eu fizer uma terapia ou procure meios de tratar esse meu medo, eu venha a ser capaz de pular.

Outro exemplo, algumas pessoas são ou estão incapazes de andar. Porém, se você dá a elas uma cadeira de rodas, para mim, elas estão andando! Pode não ser da forma que nós entendemos como habitual, mas ninguém pode negar que a pessoa está se locomovendo de um lugar ao outro, bem como eu quando ando com meus pés. Ou seja, o que estou querendo dizer no final das contas, é que a capacidade ou a incapacidade de algo ou alguém, para mim, é um estado muito mutável, as vezes basta apenas que as pessoas ao redor tenham boa vontade de adaptar uma ideia para, com isso, incluir mais pessoas no estado de capacidade.

O problema real da palavra incapaz, na minha humilde opinião, é a compreensão, ou falta de compreensão, que as pessoas têm dela e acabam mal utilizando em contextos que fazem com que ser incapaz seja algo depreciativo e, além disso, um estado que não pode ser mudado.

Uma aluna do projeto de teatro dança para pessoas com deficiência no qual eu trabalho, foi tentar tirar passaporte e no lugar do documento saiu do local com um papel válido internacionalmente atestando que ela era incapaz e por isso não tinha o passaporte, agora a mãe dela terá um documento que diz que ela pode assinar pela filha, o que faz com que a filha seja ainda mais dependente da mãe do que já é de fato. Essa aluna teve uma paralisia cerebral que a deixou sem controle motor. Ela mexe todas as partes do corpo, mas sem coordenação motora, porém, tem o intelectual 100% preservado, terminou o ensino médio, trabalha como modelo, tem um namorado, amigos, sai pra passear, usa o computador com uma tecnologia adaptada e etc. Porém, por falta do controle dos movimentos, depende de um responsável para muita coisa e também não consegue assinar nem colocar o dedo em uma máquina para identificação da digital, ou seja, não pode ter passaporte.

É com essas histórias que eu me pergunto, ela é incapaz ou o sistema é incapaz de criar uma forma dela responder por si mesma? Uma criança não pode viajar sem a supervisão de um responsável, mas pode tirar passaporte, porque ela não pode ter um passaporte que tenha uma observação que diga que ela precisa do acompanhamento de um responsável, e que não necessariamente esse responsável tenha que ser apenas a mãe dela? É ela quem tem que se adaptar ao sistema ou o sistema tem que criar formas de atender a todas as pessoas independente das diversas limitações que essas pessoas possam apresentar?

Não sei, são muitas questões nos quais ainda estou refletindo e tentando compreender qual a melhor forma de se resolver situações como essa. Não cheguei a uma conclusão, nem acho que vou chegar tão cedo. Mas acho que ninguém nunca deveria receber um papel válido internacionalmente atestando que é incapaz, não acho que, nesse contexto, essa palavra esteja representando algo positivo.


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Um comentário:

Conceicao Belo disse...

Muito bem Clarinha, você me pra refletir sobre uma palavra que às vezes utilizo sem me preocupar com o peso de seu significado.
Beijo
Ceiça