quinta-feira, 25 de abril de 2013

O MERGULHO >> Fernanda Pinho




Eu sempre acreditei em paixão à primeira vista. Mas não em amor. Sempre mesmo. Sustento essa teoria desde quando eu não tinha muita experiência para falar sobre uma coisa nem outra. Porque, sei lá, eu acho que a primeira vista oferece informações que só alcançam um nível mais superficial, que seria o da paixão. Um nível delicioso, de causar frio na barriga, tremor nas pernas e taquicardia mas, ainda assim, superficial como flutuar em águas rasas.

Claro que nada impede que a paixão à primeira vista evolua para um amor criando a romântica ilusão de que desde a primeira troca de olhares os agraciados em questão se amaram. Mas na prática, a teoria é outra coisa.

Porque a gente se apaixona por palavras ditas com intenção de causar efeito, por uma voz sedutora ao telefone, por um sotaque, por olhos puxados, pelo cheiro da pele, por um aperto de mãos firmes, por um beijo (ou pela promessa de muitos beijos), por um toque eletrizante e, nessa empolgação, você pode até soltar um “Eu te amo”. Eu fiz isso e, agora, revendo aquele momento, eu sei que ali eu estava era muito apaixonada. Amar, eu amo agora.

Tenho certeza que é amor quando diariamente eu recolho as roupas dele espalhadas pelo quarto e diariamente me pergunto como alguém é capaz de espalhar tanta coisa num espaço tão pequeno.  Tenho certeza que é amor quando me esforço para dormir em meio a ruídos de gritos e tiros, para que ele não precise desligar o videogame. Tenho certeza que é amor quando sinto minha cara queimando diante da tranquilidade dele em fazer qualquer tipo de pergunta a qualquer pessoa. Tenho certeza que é amor quando me vejo (eu, que até ontem não sabia fritar um ovo) reinventando receitas para agradar a um paladar tão diferente do meu. Tenho certeza que é amor quando ele teima comigo em alguma coisa e eu, igualmente teimosa, me vejo tentada a ceder. Tenho certeza que é amor quando ele costura o trânsito com o som do carro em último volume tocando Fear Factory (e se você não sabe o que Fear Factory, procure no YouTube e você também terá certeza de que é amor). 

Porque à primeira vista não tem roupa espalhada no chão, videogame, perguntas indiscretas, gosto estranho pra comida, teimosia e Fear Factory (nem minha TPM, minha mania de ler até de madrugada com a luz acesa, minha memória doentiamente boa e minhas oscilações repentinas de humor) . À primeira vista é só você, ele e todas as mensagens que seu corpo consegue emitir para despertar no outro uma paixão. E se tudo der certo, é guardar fôlego e preparar para o mergulho. O amor é muito mais profundo. 


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2 comentários:

Raíssa Daldegan disse...

Fernanda que texto lindo, sempre me emociono com seus texto, queria saber escrever meus sentimentos assim. Eu me apaixonei à primeira vista, ninguém acredita, mas foi. Porém concordo que a paixão se vai e fica o amor, que é muito do que você disse, as pequenas coisas do dia a dia. Parabéns pelo texto, lindo, lindo.

Zoraya disse...

Todo mundo pensa que amar é fácil, é só gostar e pronto. E você mostrea, linda, lindamente que amar é antes de tudo um ato de coragem. E também de desapego, pois escutar uma banda chamada Fear Factory durante um segundo que seja já é um ato de amor e tanto! Continue corajosa e escrevendo lindamente!