quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

CABOU!>>Analu Faria

Cabou o ano. Cabou a seca e a chuva. Cabou o relento, cabou a luva e a mão, cabou imagem, cabou som, cabou luz. Cabou escuridão. Cabou a cruz. Cabou medo de falar, cabou sonho, cabou medo medonho da morte, cabou a sorte, cabou caminho. Cabou O Caminho. Cabou tudo o que eu senti e cabou tudo o que eu comi (cabou os dois chupados pela pele da terra ou puxado pela boca do céu).

Depois disso cabou amor e cabou desamor também (ainda bem!). Cabou chorare, cabou cara manchada, cabou cama desarrumada. Cabou medo do silêncio e de repente cabou o antes e o depois (pra mais tarde voltar do mesmo jeito os dois). Cabou a barba dum e a barba doutro. E eu não entendo, mas cabou solidão. Nesse mesmo tempo, cabou briga e cabou aquela velha distância. Cabou a ânsia de que nunca ia se resolver aquela rinha. Cabou  mulherzinha, cabou implicância, cabou aquela pose de rainha.

E ainda, no fim, cabou o suor da lida, cabou um livro (cabou a vida!).  Num susto, cabou a confiança na eterna presença e aí... ah, aí cabou o sono muitas e muitas vezes, foi preciso um par de meses para cabar o medo e a falta de fé. Cabou depois dor no pé e no gogó. Cabou também o dó. Cabou fraqueza e cabou vestígio da pena, cabou ser pequena, cabou o prestígio do sim. Às vezes cabou alegria (é muita sangria que a gente aguenta), cabou cetim, carmim, festim, mas a gente, no fim, não se apoquenta.


Cabou tudo, cabou o mundo, para começar sempre de novo, num ano ainda dentro do ovo, esperando o segundo de abrir.


Partilhar

Nenhum comentário: