quarta-feira, 18 de outubro de 2017

SUA TRAGÉDIA NÃO É MINHA >> Carla Dias >>


Sua tragédia não será reconhecida, no caso da impossibilidade de enquadrá-la na televisão. Entre o comercial de amaciante de roupas e do carro de design exclusivo. Logo depois da propaganda eleitoral. Se ela não couber em discussão conduzida para transformar direitos em item opcional, muito menos importante do que instalar o ar condicionado.

Tem feito muito calor.

Sua tragédia passará despercebida, mas a culpa só pode ser sua, quem nasceu na forma, no tom, no lugar, na classe social, na cor errada. Nasceu para ser esquecido diariamente. Para ser lembrado somente quando sua luta reverberar mais do que deveria. Para calá-la, melhor conduzi-la com enredo que você jamais determinará. Enfim, ela servirá para contenção de desejo de mudança. Servirá aos que entortam seu espírito, enquanto vendem a ideia de estarem salvando sua vida.

Sua tragédia não importa. Não será discutida à mesa do jantar, durante as conversas entre os amigos a celebrarem suas conquistas, tampouco nas salas de aula. Será esquecida, como você tem sido esquecido, diariamente. Cairá no silêncio, será ocultada pelas facilidades da vida. Ela se perderá no medo.

Sua voz não ecoará, a não ser que a verdade que ela traga possa ser adaptada, de forma a caber naquele ângulo ideal para campanhas publicitárias que vendam o necessário de promessas para a próxima eleição. Sua tragédia servirá de atriz principal para promessas criadas para não serem cumpridas. Não havendo espaço na política, alguns itens cosméticos?

Quem não precisa de ajuda para parecer mais interessante na foto?

É óbvio que a sua tragédia não é somente sua. Ignorá-la é um exercício que muitos têm feito com muita dedicação, abraçando a passividade como conforto que dizem de direito. Meritocracia existencial? Um dane-se retumbante ao semelhante.

Sua tragédia não cabe perfeitamente na linha geográfica do gosto pessoal de muitos. Ah, se ela ficasse em outro continente; se fosse banhada por outro oceano. Se fosse em outro idioma, tivesse outra moeda, carregasse outra história.

Não digo que todos observem sua tragédia com a mesma indiferença, ou enxergando a chance de se aproveitar dela. Aproveitar-se de tragédias é função de muitos. Há quem ganhe a vida nessa lida. Sei que há quem, legitimamente, deseja que você supere sua tragédia, sem ter que se curvar ainda mais. Sofrer, ainda mais. Aqueles que enxergam sua tragédia, além da panfletagem, da politicagem, do olhar e poder de manipulação dos profissionais das tragédias.

Sim, aqui também cabem a Somália e o Brasil. Cabem as tragédias silenciosas, abafadas pela desigualdade social. Cabe o desfalque no país e no espírito do brasileiro. Cabem as tragédias em nome do amor, que de amor não tem nada. As que acontecem para o proveito de poucos, que deixam muitos à mercê da miséria.

Não consigo deixar de me perguntar: quando o homem vai parar de cometer tragédias? Ao menos, deixar de ignorá-las?

Imagem © Francis Picabia


carladias.com

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2 comentários:

Bruna Matos disse...

Fantástica reflexão. Ser invisível é uma das piores dores que podemos ser submetidos. É cruel perceber que os seres humanos são catalogados, e com valores distintos.

http://umavidaemandamento.blogspot.com.br/

Carla Dias disse...

Bruna, é cruel mesmo. Ainda assim,gosto de pensar que é uma crueldade que se perde diante da gentileza. Sejamos gentis com nós mesmos e nossos companheiros de viagem. Beijo.