sábado, 21 de outubro de 2017

CAIO >> Sergio Geia

 
Beber dessa bebida amarga (e doce ao mesmo tempo). Entrevistas, YouTube, crônicas, contos, romances, biografias, Caio, Caio, Caio. 

Vítima dessa AIDS que levou, além dele, outros gênios como Cazuza, Renato Russo, Betinho (e tantos outros), todos contemporâneos seus, Caio nos deixou muito cedo. Por conta dessa morte prematura, à exceção de sua literatura, há pouca coisa, principalmente na internet, sobre ele.
Não lembro como tudo começou. O que lembro, é que sempre tive na mira o “Morangos Mofados”, seu livro de maior sucesso. Também não lembro o motivo pelo qual eu o tinha na mira. Não sei se alguém falou bem do livro — aquele papo de “Nossa, esse livro mudou a minha vida!”, ou “Nossa, aquele disco de fulano de tal mudou a minha vida!” —, talvez alguém tenha dito “Nossa, o ‘Morangos’ do Caio Fernando Abreu mudou a minha vida!”, afinal, “Morangos Mofados” e “Feliz Ano Velho” marcaram uma geração. O que sei é que nenhum livro mudou a minha vida. Nenhum disco. Nenhum filme. O que me ocorre agora é que, talvez, tenha sido o título do livro que tenha me chamado a ele. Os títulos sempre me chamam. “Olhai os lírios do campo” me chamou. Lembro que um dia, entrei no Submarino e comprei “Morangos Mofados”. Desde então, respiro Caio (respiro do ponto de vista intelectual e artístico, é óbvio; mas como gostaria de ter respirado o mesmo ar de Caio; poderia ter sido no Ritz?), e “Morangos Mofados” virou o meu livro de cabeceira, quem sabe, candidatíssimo a mudar a minha vida.
Neste momento leio “Para sempre teu, Caio F.”, da Paula Dip, que foi colega de trabalho e amicíssima de Caio. É uma biografia, e como toda biografia, me oferece um mergulho na vida do autor. Conhecer a sua infância, a sua vida antes de se tornar o escritor famoso, a visão que os amigos tinham antes dele se tornar o escritor famoso, hábitos, preferências, personalidade. Está recheado de passagens da sua vida (claro), cartas — Caio adorava escrever cartas —, bilhetes, textos, crônicas, fotos, os bastidores de diversos contos, inclusive dos “Morangos”, a vida a mil, visceral, muito Caio, sem medo de ser infeliz.
Outro dia estava lendo a crônica “Ao momento presente” que está no livro “Pequenas Epifanias”, da Editora Nova Fronteira, em que Caio reverencia esse momento esquecido. Depois li “Lições para pentear pensamentos matinais” (Caio era ótimo para escolher o título dos seus textos), depois “O livro da minha vida”, e depois “A cidade dos entretons”. Adorei “Quando setembro vier”. E que sacada! Depois pensei: “Esse Caio é realmente fascinante!”
Inimigo dessas de preservar estabilidades, absolutamente aberto ao mundo, a tudo e a todos, Caio é uma fonte inesgotável de ser. Intensidade plena. Luz e Sombra. Dia e noite. Medo é uma palavra que não existe no seu dicionário. Sofrimento, amargura, depressão, angústia, agonia, fracasso, constrangimento, até broxadas, foras, furadas monumentais. Isso é vida, e Caio não tem medo dela. Abrir mão dessas coisas é abrir mão da própria existência.
Lembro que algum tempo depois de lançar o meu romance, uma querida ligou dizendo que tinha gostado da história e, principalmente, dos personagens, que não tiveram medo, segundo ela, de fazer escolhas que significaram, no universo ficcional da obra, uma guinada de 360 graus, ainda que tais escolhas significassem também problemas. Disse que se arrependia de suas escolhas. Diferentemente dos personagens do livro, a leitura a fez entender que sua opção fora sempre a opção do conforto, do controle absoluto, do medo do novo, do não-viver, do não-arriscar. Uma escolha, digamos, não-Caio, não-vida.
Esse sentimento traduzido no livro eu senti anos atrás, tanto que mal ou bem, consegui transportá-lo para os personagens, de modo a fazer com que eles fossem diferentes do que eu tinha sido até então. Não tenho dúvidas de que gostaria de ter a personalidade marcante do padre-narrador.
Sinto que Caio vem dar um refinamento a esse sentimento.


P.S.: Um amigo me falou coisas: “que os problemas vão se acalmar com o fim do período de retrógrado”, “que o Sol estará em Virgem, enquanto a Lua estará em Peixes”, “que ouviremos boas notícias sobre conquistas sociais, econômicas, culturais, humanas e espirituais”. Lembrei-me na hora de outra das muitas facetas do Caio.
“Nossa, como você hoje está Caio Fernando Abreu!”, respondi.
E arrematei:
“Com Sol em Virgem e ascendente em Libra”.
Momento Caio.
Total.


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2 comentários:

Irislene Santos disse...

Adorei. Por sua causa vou ler o " Morangos Mofados'. Obrigada!

sergio geia disse...

Grato, Irislene. Leia Caio, vce não vai se arrepender. Gde abraço!