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FAUSTO WOLFF (1940 - 2008) >> Leonardo Marona

Então morreu o lobo. Morreu de ofício do tempo e sem reclamar. O deserto se fechou, o lobo não vive afugentado no eterno branco. Não é possível mantê-lo de pé sem o líquido da vida, que apenas os duros bebem aos borbotões, com rosto duro cheio de ternura, e os selvagens se lambuzam. Morreu então o lobo que, sempre ereto, uivava palavras em alemão. O lobo que escutava uma tristeza ulterior no vento de areal. O lobo que comia carne crua e esperava a lua para nascer a cada dia. Um dia ele não mais nasceu. O mundo do lobo é um mundo sem bondade nem crueldade, totalmente aberto e perigoso, um mundo sublime possível justamente por ser um mundo sem rédeas. Um mudo natural por si. A dureza do lobo vinha de saber que um mundo assim é cruel para os padrões humanos e que, portanto, a natureza era mesmo cruel na visão humana, e isso fazia com que nós humanos não soubéssemos realmente o que fazer ou desejar, pois a maldade era a nossa própria cabeça, e a única saída era tornar-se inumano para, assim, renegar a falta de humanismo da massa original, que não vem exatamente de nós, mas do que nos gerou e não sabemos. O lobo chorou muito com o tempo adverso. Em silêncio, soletrou absurdos líricos, usou pedras de travesseiro cético. Costelas à mostra, chorava devagarinho. A dor lancinante – boca de abutre no intestino – dificultava os ganidos românticos. O lobo chorou para a lua porque no fundo desejava chorar por tudo que é e não é o mundo com uivo completo de magnitude caudalosa, como um agradecimento amaldiçoado ao germe da faísca. Difícil saber agora o que fazer sem a presença arrítmica do lobo, como imaginá-lo acinzentado ao vento, dar carinho aos seus restos pútridos. Seu charme magnético de andar. Sua relação direta com o cosmos. Seu mais completo desinteresse sobre questões de ego ou repartição. Ah, e sua violência mitológica! As garras de fora no momento do pulo. As costas eretas no toque do verbo. O lobo agora, vieram buscá-lo. Trouxeram finalmente a foice, pegaram-no diante do último salto. Pela força única que sua ética denota, o lobo, é provável, virá outra vez, e outras, porque ele é costela da natureza selvagem, poesia de gatilho e meio-fio à luz de prata. Deus queira que esteja por paragem ainda mais árida, ainda à espreita, andando por quem não tem pernas, vivendo por quem não tem vida. Mas deus não existe, eis a dura beleza. E o lobo sabe que é matéria inata, ancestral crucificado da beleza primitiva.

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