Pular para o conteúdo principal

DIAS DE "CAPELETI" [Maria Rita Lemos]


Foi no domingo, dia dos Pais. Éramos três mulheres conversando sobre a data, sendo que os pais biológicos de todas já haviam partido para outra dimensão. Certamente por esse motivo, e também porque nossos filhos e filhas estavam passando o dia com os pais - biológicos ou não -, resolvemos juntar as comidinhas e a saudade para um almoço nada tradicional para a ocasião.

Cada uma de nós falou um pouco do pai que teve, e de como passávamos o seu dia, até sua partida. Foi então que ouvi a história do "capeleti", tão real quanto belíssima, que comoveu tanto a nós, ouvintes, que resolvi contar aqui, embora o Dia dos Pais tenha ficado para trás. Mas, como nunca é demais refletir...

O pai de Maria, que é o nome fictício que darei a esta pessoa querida, faleceu quando ela tinha 14 anos, mas na verdade ela já sentia sua falta desde os 11, ocasião em que ele partiu para outra viagem, também longa na distância, mas com voltas periódicas. Explico melhor. Maria morava, então, com os pais, o avô e avó maternos e o irmão mais novo no Rio de Janeiro. Quando tinha 11 anos, os homens adultos da casa resolveram tentar a vida no Mato Grosso, um estado em franca expansão, onde trabalhariam com seu ofício, que era a perfuração de poços artesianos, nas cidades e em zonas rurais. Lá se foram, o pai e avô de Maria, para o futuro que os aguardava no inóspito Pantanal. No Rio ficou o resto da família, ou seja, mãe, avó, Maria e o irmão de 9 anos, que vou chamar de João. É mais ou menos aí que a história começa a se fechar.

Entre o Rio de Janeiro e o Pantanal, agora como há mais de trinta anos atrás, as distâncias eram enormes e os meios de comunicação de então eram quase impraticáveis, portanto os homens só vinham duas vezes ao ano, geralmente em junho e nas festas natalinas. Não havia comemoração de aniversários, Dia dos Pais ou das Crianças fora desses períodos - tudo era festejado de forma compacta, quando os homens retornavam para os dias de férias.

Maria contou, emocionada, que tanto João quanto ela faziam, na escola, mimos para o Dia dos Pais: os tradicionais porta-retratos de papelão, marcadores de livros, prendedores de gravatas, que naquela época ainda eram usados. Tudo era feito e guardado com muito carinho. O mais importante, porém, nem era a entrega dos presentes, cansados de esperar nas gavetas. O fundamental era o ritual que acompanhava a chegada dos varões.

Italiano nato, educado em colégio do Vaticano, o pai de Maria adorava massas, mas deplorava as que eram compradas prontas. Por isso, a tradição mais solene de suas visitas à família era a confecção caseira, a muitas mãos, do "capeleti" com o qual se regalavam a família, amigos e vizinhos mais chegados. Acontecia assim: no dia imediato à chegada dos pais, após o merecido repouso, iniciava-se o preparo da iguaria. Papai e vovô faziam a massa e abriam-na com o rolo de madeira, Maria e João recortavam os quadradinhos, que, por sua vez, recebiam o recheio, carne ou frango, que mamãe e vovó já haviam preparado, também de forma artesanal. Em seguida, as crianças enrolavam os quadrados e uniam sua beiradas, formando conchinhas, perfeitamente iguais. Quase tudo pronto, as visitas chegavam e o "capeleti" ia para o caldeirão de água fervendo, após o que a massa cozida recebia o molho pomodoro, naturalmente feito em casa com legítimos tomates ao ponto. Sentavam-se então todos à mesa comprida, no quintal da casa grande em Laranjeiras, e o almoço, enriquecido com pasta de berinjela e garrafões de vinho tinto, só acabava no início da noite. Chegava, então, a hora da entrega dos presentes, de parte a parte: do dia dos Pais, das Crianças, do Natal. Tudo era festejado e apreciado, por mais humilde que fosse, enriquecido pela longa espera. No entanto, como "chegar e partir são só dois lados da mesma viagem", como diz a canção, o Ano Novo chegava e levava os homens de volta ao Pantanal. Havia, também, um certo ritual na volta - um ponto, na estrada, até onde as mulheres e crianças iam com seus amados, para depois retornarem para esperar o próximo "capeleti". Mas isto é outra história, que fica para outra vez.

O que quero deixar aqui é a moral da história, ou seja, o amor que não precisa de datas. Imprescindível, para o amor e os que amam, são os ritos, isso sim. Se os rituais do amor coincidirem com as datas que a sociedade convencionou, tanto melhor. Mas se não coincidem, por favor, escolham ser felizes como Maria foi com seu pai. Ou seja, troquem as datas fixas pelos rituais amorosos. Mais vale uma panelada de "capeleti" feita por pais e filhos juntos que todos os dias dos Pais, cheios de presentes e vazios de Amor.

Imagens: Father and Daughter on Beach, Rick Gomez; Family Toasting Outdoors, Ingolf Hatz

Comentários

Ana disse…
Ai, que lindo!
Deu até vontade de fazer um capelleti aqui, com todo o seu ritual!
:)
bjs!
Que linda história, Maria Rita! Grato por compartilhar.
Anônimo disse…
Oi, Eduardo... compartilhei, sim, e vou fazê-lo enquanto me deixarem. POrque se não sair o que tenho no coração, eu sufoco de amor pela vida...
Beijos,
Maria Rita
Anônimo disse…
Ana, querida, obrigada. Sim, capeletti é muito bom, principalmente por causa dos rituais. Aliás, Saint Exupéry, o "filósofo das misses" (ai, tadinho, se ele sabe disso mexe na cova) disse que " o amor requer ritos"
Beijos, meu melhor.
Maria Rita
Anônimo disse…
Achei muito legal essa história sobre o capelleti!!!
Muito bonita e concerteza gostosa!!!hsuasasu

Juliana =*

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …