sexta-feira, 5 de outubro de 2018

JÁ VI ESSE FILME >> Zoraya Cesar

A noite fora quente como uma fornalha do inferno. Os diabos estavam soltos e animados. Alguns tentaram esquentar meu couro, mas mandei-os de volta para o tártaro. Não estava a fim de conversa. Nunca estou a fim de conversa. Cheguei ao meu apartamento, peguei um saco de gelo para botar nos machucados e tomei um analgésico. Preciso parar de ser tão reativo. Com a idade a aparência custa a voltar ao normal e eu não podia visitar o cliente do dia seguinte com a cara toda amassada. Não pega bem.

Por mais cínico que eu tenha me tornado após esses anos de profissão, às vezes ainda me surpreendo com a imbecilidade de certos tipos. Creio que alguns simplesmente pedem para serem enganados. Depois me contratam para consertar o erro. Pra mim, quanto mais idiotas, melhor.

Vejam esse meu novo cliente, Dr. Tarcísio Dum Fruklost. Empresário rico, família tradicional, viúvo, todos os filhos espalhados pelo mundo, gastando o dinheiro que seus antepassados suaram muito para conquistar. Cansado da solidão, decidiu casar de novo, aproveitar as delícias do matrimônio antes que D. Morte o tomasse por esposo. Poderia ter escolhido alguém de seu nível social. Uma dama. Ou uma mulher mais madura, mais compreensiva quanto às suas limitações sexuais. Mas não. O velho sátiro resolvera casar com uma mulher quase 50 anos mais nova, apresentada por um 'amigo'. Folhetim brega e batido. As pessoas não aprendem. Pois, claro, depois de alguns meses, boatos surgiram questionando a fidelidade da jovem esposa. Dr. Tarcísio calou os boateiros mediante algumas ameaças, algumas pressões, algumas chantagens. Mas o veneno fora instilado. E ele me contratou.

Meu contratante era ainda forte. Tinha as espáduas largas de quem passara a vida nadando contra a corrente, a postura ereta dos que estão acostumados a mandar. Os olhos fulguravam com o brilho característico dos homens que sabem lidar com a malícia do mundo – e se servem dela muito bem. O tempo, no entanto enfraquece até os leões mais resistentes. E a fera perde a força de ataque, o instinto matador e, pior, seu lugar de macho alfa. A única maneira que vira para tentar frear, ou, ao menos, diminuir a marcha célere ladeira abaixo, fora casando com uma mulher capaz de fazer os outros homens virarem os olhos – e muitos, como ele próprio, também a cabeça.

Ele começou a mostrar fotos e vídeos. Quase soltei um palavrão. A mulher era uma enviada do demo. O próprio Asmodeus deve tê-la expulsado dos infernos a fim de que ela não o destronasse e dominasse os outros diabos. Confesso que, até então, pensei tratar-se de uma piranha vulgar. Dessas coitadas que encontramos em bares bem depois das altas horas, experts em saber escutar e fingir que o maior desejo de suas vidas miseráveis é abrir as pernas para que homens encharcados de bebida e desolação encontrem um pouco de calor humano. Eu sei. Já fui um desses homens.

Mas ela! Ela estava longe disso. Laura era seu nome e, mesmo vista na tela, sua presença era tão magnética que quase pude sentir seu perfume. Uma mistura de dama da noite com tabaco. Era cheia de curvas, todas sensuais, seios que saltavam da roupa, pura luxúria. E tinha classe. Movimentos comedidos, sorriso discreto e olhos profundos. Senti um arrepio. Aqueles olhos pareciam penetrar em você e dominar sua mente. Os cabelos castanhos, longos e ondulados emolduravam um rosto branco leite, que meu deu vontade de beber e...contive-me. Mais um pouco e eu estaria babando na frente do marido. Percebi o fascínio que ela exercia sobre os homens. Dr. Tarcísio, por experiente que fosse, não era páreo para ela. Ninguém era.

- Não quero escândalos nem provas de adultério para fins de divórcio. Quero apenas que Laura se sinta constrangida a não me trair por aí. É muito humilhante para um homem como eu. Estou velho, mas ainda tenho algum poder. E há quem possa usar as escapadelas de minha esposa contra mim. O senhor entende?

Sim, pensei, entendo muito bem. O pobre diabo estava viciado nela, como o enfisematoso ao seu tubo de oxigênio, o drogadicto à sua injeção de heroína E o desgosto de ser passado para trás, de ser visto como um corno manso no final da vida, eu também entendia. Quem foi rei não gosta de perder a majestade. Por isso eu jamais quis ser o fodão. Ninguém quer competir comigo para pegar o meu lugar. Nos westerns, sempre tem um novato idiota disposto a desafiar o pistoleiro lendário para provar que sacava mais rápido. Assim também na vida. Daí que escolhi andar pelas sombras. Você lida com gente mais perigosa. Mas se acender a luz todo mundo foge.

Dr. Tarcísio podia ser o maioral pra sua gente, os grandalhões do mercado, das finanças, do que fosse. Mas, para o comum dos mortais, não passava de um paspalho. Qualquer marciano lhe diria que uma mulher fogosa daquelas não se conformaria com sexo mixa nem seria constrangida a coisa alguma. Essa tentativa canhestra de manter a dignidade fazendo-a perceber que estava sendo seguida e impedi-la de dar o corpo para quem quisesse era risível. Dr. Tarcísio era digno de pena. Como não tenho pena de ninguém, cobrei um valor bem mais alto do que costumo cobrar para esse tipo de serviço. “Taxa otário”, como chamo.  

Minha fiel USP Heckler & Koch.
Nunca me falhara.
Confiava mais nela que em mim mesmo.
Passei num bar de nenhuma categoria, tomei duas doses de um uísque que deve ter sido batizado com água de privada, e fui andando para casa. Ao chegar, parei, peguei minha Heckler & Koch USP e empurrei a porta, tão delicadamente quanto meu estado etílico permitia, a porta entreaberta que eu deixara trancada ao sair.

O perfume de dama da noite com tabaco chegou aos meus sentidos antes mesmo de eu entrar. Acendi a luz. Lá estava ela, sentada no meu sofá como se tivesse feito isso a vida inteira. Sentada não. Lânguida e sensualmente recostada, olhando-me de soslaio, o cigarro nas mãos.

- Se vai apontar a arma – ela ronronou, como uma onça ao vislumbrar a caça – é melhor atirar.

Meu coração tentava saltar pela boca e cair nos braços dela. Engoli saliva diversas vezes, até colocá-lo de volta no meu peito. Então era esse o jogo. A pequena demônia fora mais esperta. Em vez de o detetive segui-la, ela seguiria o detetive.

Seduzindo-me, poderia continuar a trair o marido sem ser perturbada. Ele ficaria sossegado. Eu ganharia meu dinheiro. E mais que isso.

Sairíamos todos ganhando.

O problema é que no jogo da vida não existem partidas em que todos saem ganhando. Acreditem em mim. Sei do que estou falando. As mais das vezes, os otários perdem, e um único esperto se dá bem.

Largada no sofá de minha sala,
Laura testava o poder de seu fascínio sobre mim.
Aquela mulher exercia uma atração animal estonteante. Exalava feromônio até pelos cabelos. Cada movimento seu era naturalmente sedutor. Guardei a arma; não era de um revólver o que eu precisava, mas de cabeça fria. Já vira esse filme antes. O herói se dá mal. Ela me usaria, aniquilaria com a minha auto-estima, pisaria em todos os meus escrúpulos, me reduziria a um escravo de suas vontades, um viciado em seu corpo, rastejando para que ela me desse um olhar que fosse. Laura poderia transformar o mais espartano dos homens em um estulto lastimável. Já vi esse filme antes. 

Ela bateu as cinzas do cigarro na própria mão e soprou-as em minha direção. Amigos, aprendam: nenhuma mulher é tão perigosa quanto aquela que coloca dor e prazer no mesmo pote. A experiência me ensinou que, mais importante que saber usar uma arma, era conhecer a natureza humana. Isso podia ser a diferença entre a vida e a morte. Fechei a porta. Tirei o paletó. Aproximei-me e beijei-a selvagemente, apertando meu corpo contra o dela.

Gosto do que faço. É o que sei fazer melhor. Não suporto patrões, horários rígidos, rotina. Meu trabalho é cansativo; muitas vezes, arriscado; nem sempre paga o suficiente. Gosto também de testar meus limites. Correr riscos. Desafiar o abismo. Talvez, dessa vez, eu conseguisse mudar o final do filme.

Outra aventura da série Detetive Sem Nome: 

Foto Laura: Rudy Nappi - Pinterest
Foto Heckler & Koch USP (universal self-loading pistol)
https://www.guns.com/reviews/heckler-koch-usp-compact/


Partilhar

5 comentários:

Unknown disse...

"Por isso eu jamais quis ser o fodão. Ninguém quer competir comigo para pegar o meu lugar." Gostei desse cara. Esperto. Concordo com ele. Boa história, Zo!

Ana Luzia disse...

quero ver o final do filme!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Marcio disse...

Tem outras partes, ou o restante fica por conta da imaginação de cada um?

Anônimo disse...

gostei! quero mais

Anônimo disse...

Quero saber se ele cai feito um otário ou se ele comanda o fim ou se surge uma incrível história de amor!