sábado, 20 de outubro de 2018

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia




Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.
Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o último, pt. Enfim. Depois de assistir a tantos, estava eu envolvido num engavetamento. Todos, inclusive eu, em bom estado, sem qualquer ferimento, se pudermos excluir o emocional, claro, do que entendemos ser esse bom estado. Na verdade, estávamos todos feridos emocionalmente.
Orientados pelos federais, pusemos os carros no acostamento. Habilitação e documentos. Teste do bafômetro (eu era virgem até então em bafômetros; como era virgem em colisões de automóveis. Aliás, tinha orgulho dessa condição: em mais de 30 anos de habilitação, nunca havia me envolvido num acidente). O coração continuava batendo rápido, embora me sentisse tonto, mergulhado numa espécie de torpor. Estava desorientado, zonzo. Liguei para um amigo. Conversamos. Precisava falar, me libertar da inação.
Boletim de ocorrência pela internet. Anotação das placas. Seguro do último dos carros deveria cobrir os danos. O motorista não lembrava qual era o seguro, teria que ver em casa, em pastas, depois deixou escapar que talvez não tivesse pago as últimas parcelas.
Consegui trazer o veículo até a garagem do meu prédio, agradecendo o tempo todo por não ter sido uma carreta a causadora do engavetamento. Entrei em casa estranho (continuo estranho). Examinei-me de cabo a rabo, não localizei qualquer dano aparente. Percebi que os batimentos cardíacos continuavam elevados, 120, 130; a pressão, normal. Tentei comer. Tentei dormir. Dia seguinte acordei cedo e saí para caminhar. Tentei trazer normalidade para o meu dia. Tentativas vãs. Caminhei, corri, mas continuo estranho.
Talvez um dia passe. Amanhã, quem sabe; ou depois.
Mas enfim, queridos, escrevo apenas para contar que apesar do susto, eu estou bem. Sei que alguns ficaram sabendo, ligaram, mandaram mensagens via whatsApp, demonstraram preocupação. Obrigado. Mas não foi dessa vez que vocês se livraram de mim, ou das minhas crônicas.
Foi uma coisa bobinha, eu sei, nada perto de tanta tragédia que ocorre por aí. (Aliás, por falar em tragédia, a fé é uma coisa maravilhosa, como maravilhosa é a quantidade de romeiros que caminham pela Dutra nesse mês de outubro em direção a Aparecida. Mas isso pode ser tema de uma outra crônica, quem sabe; já tenho o título: “Crônica de uma tragédia anunciada”). Mas é impressionante como uma coisa bobinha dessas desarranja por completo tudo que a gente demora anos para construir aqui dentro.
É vida que segue.


P.S.: Aviso aos navegantes: não precisei de Lexotan, ok? Ainda.




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5 comentários:

Zoraya Cesar disse...

Sergio, só vc mesmo pra extrair uma crônica maravilhosa de um acontecimento desses. Sem engavetamentos no seu texto! Espero que esteja melhor. Essa repentina consciência da mortalidade ou de que escapamos de algo terrível é muito assustadora! (e ainda assim uma cronica perfeita). bjos

sergio geia disse...

Zoraya, querida, foi um susto, mas estou bem. Talvez a forma que nós utilizamos para espantar essa estranheza que nos domina em certos momentos seja escrevendo. Sempre falo que para mim a crônica é como se fosse uma fotografia e eu precisava fotografar. Bons momentos, maus momentos, o baú precisa ser preenchido com fotografias. Beijos, querida, e sucesso hoje! Gostaria muito de participar mas tenho um compromisso.

Brasilino Neto disse...

Amigo Sérgio, excluo desta sua bela crônica a frase 'Mas não foi dessa vez que vocês se livraram de mim, ou das minhas crônicas', e efetivamente não queremos isto, pois estamos felizes pelo seu bem-estar, e o queremos sempre assim como amigo, como pai, como irmão, como poeta, como companheiro, como profissional qualificado que é, sempre nos alegrando e ensinando como contornar, pelas boas escritas, os trejeitos, que a vida nos impõe. Fraterno abraço.

P.S = E me lembrando, hoje é dia do Poeta, então, além do fraterno, receba também um poético abraço.

Darci Siqueira disse...

Sua vida é uma Crônica e suas Crônicas são sua vida! Feliz pela sua vida. Parabéns amigo.

sergio geia disse...

Grato amigos Darci e Brasilino. Darci, crônica sempre crônica. Brasilino, um grande abraço, especialmente aos poetas de Caçapava