quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O TERRORISMO COTIDIANO >> Carla Dias >>


Desde o lamentável acontecimento de Charlie Hebdo, tenho assistido à ostensiva cobertura da mídia a respeito do assunto. Nada mais justo, que o ato terrorista fez suas vítimas. Muitos se solidarizaram e se mobilizaram em homenagem aos mortos e na defesa da liberdade de expressão, e não somente na França, mas no mundo.

Nas redes sociais, muitos são os que têm pontuado a tragédia francesa com as brasileiras. A ideia não é minimizar a violência que tomou de assalto o jornal Francês que usava o humor para questionar o extremismo, em todos os seus aspectos. Aliás, eu acredito que o humor seja uma importante ferramenta para fazê-lo. A questão é explicitar que a violência, justificada por ser cometida em nome de Deus ou da lei dos homens, espalha-se pela geografia do mundo.

Violência não é justificável, mas definitivamente atinge a todos os aspectos da vida do ser humano. A violência que tolhe os direitos, a verbalizada em ofensas, a cometida em nome da fé - ou da falta dela - e do amor. A policial, a política, a parental. Que fique claro que cometer ato que seja em nome de quem ou o que seja não significa que as consequências devem ser cobradas ao outro, pessoa ou tópico. A escolha é autoral, assim como deveriam ser as consequências.

O que negamos, veementemente, é que a violência pode ser inspirada facilmente, principalmente em um momento que a conectividade tecnológica nos permite chegar a lugares onde nunca colocamos os pés. O que aconteceu na França foi ato de terrorismo, mas baseado no que conhecemos bem: a intolerância ao que não corresponde à verdade adotada por muitos indivíduos. Mas, e no nosso dia a dia?

Na rotina, muitos inspiram a violência, mesmo sem aceitar que é o que estão fazendo. Assim como na radicalização religiosa, o indivíduo defende a sua ideia sobre alguém ou algo, como se ela fosse única. Não me canso de bater nessa tecla, porque a maioria de nós age como se a radicalização fosse benfeitora, o que não é verdade. Estar errado a respeito de algo e ser capaz de reconhecer isso é o que inspira o diálogo, o que colabora com o entendimento. Quando você decreta o seu ponto de vista o único, desacreditando a capacidade do outro em estar muito melhor sintonizado com o tema, você se iguala aos extremistas, pede que, em nome da sua crença, todo o resto seja ignorado.

Defender uma ideia, uma posição na vida é diferente de ser intolerante. Ao defender, você sabe que pode ter de modificar para melhorar, para se conectar à verdade. Quando você impõe, a intolerância reina plena, e a violência, eventualmente, dá as caras. E o cenário para esse desenrolar pode ser qualquer um, da sua linha do tempo nas redes sociais ao seu lar. De uma nação a uma sala de reuniões.

Pense bem no que você está oferecendo ao mundo. A liberdade de expressão não é direito somente dos jornalistas, mas sim de cada um de nós. Defendê-la é também aceitar que escolhas são diversas, compatíveis com a pluralidade do ser humano. Posicionar-se, com respeito à posição do outro, sem se agarrar a qualquer tipo de violência, é tornar a convivência possível e justa.

Também espero, como muitos de vocês, que a fome, a miséria, o despreparo da polícia, a politicagem em prol de poucos, a farra dos corruptos, o uso indevido do poder, a ladroagem arquitetada por líderes religiosos, as máfias disso e daquilo, o preconceito, os traficantes, as leis que jogam contra a justiça, enfim, espero que nosso terrorismo cotidiano tenha fim.

Vamos trabalhar para isso, então. Sem nos sujeitarmos à violência, busquemos o mais justo que defendemos, diariamente, no que dizemos e na forma como agimos.

carladias.com

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