sábado, 24 de janeiro de 2015

CELIBATO >> Sergio Geia

Eu não chego ao ponto de estabelecer uma relação lógica entre os casos de pedofilia praticados por sacerdotes e bispos da Igreja Católica e o celibato. Acho que não é o caso. Também não comungo da mesma opinião do Leonardo Boff, para quem o escândalo da pedofilia seria um sinal de Deus tentando dizer que é hora de a Igreja abolir o celibato imposto por lei eclesiástica.

Sinceramente? Acho que a exigência de abstinência sexual é uma regra que violenta o ser humano. Você não pode simplesmente mudar a natureza de uma pessoa. Deus, ou quem quer que seja, nos inventou com um órgão sexual no meio das pernas. Não foi pra ele ficar inativo, morto. Ele tem que funcionar. Ninguém muda a natureza. É impossível. Uma hora ou outra ela fala mais alto, e aí eu tenho uma bomba-relógio. Por mais que conscientemente o indivíduo opte pela vida celibatária e pela abstinência sexual, sua natureza humana em determinado momento vai gritar, pedir, reclamar.

Segundo estudos de psicologia, ainda citando Boff, o homem só amadurece sob o olhar de uma mulher. A mulher só amadurece sob o olhar de um homem. Homem e mulher são recíprocos e complementares. Quer dizer com isso que um sacerdote não consegue atingir a maturidade, no sentido sexual, quando não tem uma mulher ao seu lado. Uma companheira. Sempre me perguntaram como um padre pode dar conselho para o casal se não entende patavinas de casamento, sexo, relação a dois. E não entende mesmo. 

Dizem os teólogos e padres que o xis da questão, fundamento maior da sustentação da prática, é que o próprio Cristo, em sua vida missionária, não deixou a natureza falar. Foi celibatário. Nada mais falso. Não o Cristo, imagina. O argumento. A Igreja Católica admite padres casados. Não só as Igrejas Católicas do Oriente os aceitam, mas também, no ano de 2009, o papa aposentado Bento XVI baixou uma provisão aceitando dissidentes anglicanos casados que quisessem optar pelo catolicismo. A Igreja Anglicana, aliás, que se mostra muito mais antenada com as novas gerações, com o pensamento progressista e com as próprias ciências humanas, ao aceitar sacerdotes gays e mulheres, e ao apoiar métodos de controle de natalidade.

É com bons olhos, portanto, que assistimos à Igreja Católica, sob a batuta desse argentino chegado num futebolzinho, se arejando, respirando novos ares, deixando o atraso no vestiário. Aceitar os gays sob o argumento de que eles podem oferecer boas coisas à igreja é um grande passo para uma instituição apegada num moralismo tacanho. Aceitar casais em segundas núpcias é outro. A pílula (cristãos não devem se reproduzir como coelhos, lembra?). E por que não aceitar mulheres sacerdotes? Ou padres casados?

Tenho amigos padres que deixaram a igreja pelo amor de uma mulher. Quer coisa mais abençoada que amar? Tenho certeza que Deus não faz distinção entre padres celibatários e padres casados. Isso é coisa que vem do homem mesquinho, arrogante, presunçoso, prepotente, ambicioso. Esse é o grande problema: regras que não nasceram de Deus, mas nasceram do homem. O sagrado contaminado pela dimensão mais podre da essência humana. Esses amigos, valiosos homens, que se renderam ao amor de uma mulher, teriam muito ainda a oferecer em prol da igreja. Perdeu ela. Perdemos nós.

 


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