quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

REINVENTAR-SE >> Carla Dias >>


Acredita que vai bem, obrigado. Seu talento reconhecido, a vida na direção almejada, quase tudo no lugar que deseja. Paira, então, uma calmaria em meio ao caos das realizações de sua autoria, que farão parte do discurso de sua mãe, ao reconhecer o amor e o orgulho que sente pelo filho, durante os jantares oferecidos em sua casa, para parentes e amigos. Panfletagem maternal.

Às vezes, não consegue acreditar que vai bem, obrigado. Que desde o dia em que decidiu aceitar que tudo é possível, tudo tem sido possível. Obviamente, deu trabalho manter a certeza: pilates, terapia, contenção de palavrões proferidos, mantras, best sellers de autoajuda, maratona, voluntariedade, abandono aos telejornais, cinema europeu, curso de linguística, sessão de descarrego, missa, meditação, música clássica, terno de fino corte, futebol com os camaradas da comunidade, dança de salão.

Sapatos lustrados. Cabelos impecáveis. Sorrisos proféticos.

Observa o seu entorno, atentando para aqueles que o frequentam: assistente pessoal, assistente profissional, assistente dos assistentes, relações públicas, diretor financeiro, produtor, faz-tudo, cozinheiro particular, guia espiritual, amantes, para mencionar somente os mais próximos. Todos enxergam nele o resultado do desejo saciado. Todos querem dele um pedaço desse sucesso, por isso ele não se abisma quando descobre um e outro tramando para lhe tomar o conquistado. Faz parte do negócio da vida tais desapontamentos.

Acredita que os santos foram bondosos ao atenderem todos os pedidos que ele fez a eles. Nem sempre acredita que a bondade dos santos é apenas bondade, que na realização sempre vem algum tipo de ensinamento e, no momento, ele sente como se não tivesse se dado conta de nenhum deles. Como aprender se não se sabe o quê?

Por isso aprendeu a pintar paisagens, com um toque gótico-lúdico.

Bastou um par de quadros para que seu nome pipocasse nos programas de celebridades, na televisão. Jornais e revistas, online e impressas, deram estaque à descoberta do seu novo talento. Mas ele queria mesmo era fazer segredo, queria esse feito somente para ele. Mas o assistente pessoal o pegou com o pincel na tela, quando entrou sem bater em seu quarto. Ele contou para o assistente profissional, que reinventou a história e contou ao relações públicas, e logo todos sabiam da novidade. O que era para ser somente seu, caiu no gosto do mundo.

Toda vez que alguém lhe diz, olhar marejado, que ele é tudo o que esse alguém queria ser, mas não pode, ele se sente extremamente incomodado. Porque ele acredita que vai bem, obrigado, mas não é provedor de todas as delícias da vida. As dores também lhe habitam.

Como a dor da falta de quem lhe queira bem porque sim. Aquela conversa fiada em boteco de cidade pequena, assuntos diversos regados à cerveja e gargalhadas. A mãe contando histórias a ele e aos irmãos, em noite que faltava energia. O pai arando a terra para cultivar alimento. A boca carnuda de Maria das Graças, cozinheira do único restaurante da cidade, moça provida de beleza indubitável.

Não que ele não aprecie suas conquistas e o que elas têm lhe oferecido de prazer. Ele trabalhou muito, dedicou-se a construir sua história. Mas com o tempo, percebeu que nem tudo nesse balaio o faz sentir feliz. As pessoas que lhe cercam não o conhecem, nem mesmo seu guia espiritual, tampouco seu terapeuta.

Acredita que vai bem, obrigado. Porém, sente falta de alguém que lhe enxergue além do currículo, dos perfis em revistas de fofocas, do sensacionalismo que tanto o desagrada. O jeito é tentar um novo projeto, um simples e definitivo projeto, que inclua somente aqueles que verdadeiramente lhe querem bem. E, aos poucos, vai se desfazendo do que julgou essencial, mas não era. Daqueles que ele acreditou não saber viver sem auxílio, mas que, na verdade, nunca se importaram com ele, mas com o que ele podia oferecer.

Pés descalços. Cabelos alvoroçados pelo vento. Sorrisos poéticos.


Imagem: Decalcomania © Rene Magritte


carladias.com

Partilhar

2 comentários:

Zoraya disse...

Queria ter coragem de assumir um projeto desses enquanto é tempo.

Carla Dias disse...

Zoraya... Já assumiu? Vai que a coragem vem :)