quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

SONHO NÃO REALIZADO >> Carla Dias >>


Durante sete meses e dois dias, ela esperou por aquele momento. Sabe aquele? O momento, o divisor de águas, a realização de um desejo, um gosto, um dos sonhos mais sonhados – acordada e dormindo.

Preparou-se, dedicadamente, que aprendeu que dedicação é ferramenta poderosa para concluir realização. Leu todos os livros que lhe indicaram, de best-seller, os escritos pelos amigos dos amigos, os de autoajuda à bibliografia de Nicholas Sparks. Assistiu a todos os filmes baseados nos romances do escritor, para então assistir ao filme O Ponto de Mutação, quatro vezes seguidas, para se aprumar.

Também aceitou indicação de chás calmantes e decidiu dar um jeito na preguiça. Foi do Bio Boxe, na animada academia da cidade, passando pela Power Yoga do Centro Holístico do bairro, voltando ao alongamento por espreguiçamento no sofá de casa.

Acredita que, para se alcançar o ideal, é preciso gastar muito tempo a compreender os tombos, inclusive aqueles que levou na rua, na escada do trabalho, no aeroporto, na sala, durante a festa de aniversário do primo de humor duvidoso, no parque de diversões, no restaurante frequentado pela família. Claro que, depois do laudo médico, que mostrou que sua saúde estava ótima, ela teve de recorrer ao plano espiritual para compreender tantos tombos em ocasiões pra lá de embaraçosas. A ajuda foi necessária, e acabou amiga do astrólogo do apartamento 25, cliente da vidente da prima, voluntária nas obras beneficentes do Padre Gregório, com uma quedinha pelo tarólogo picareta de olhos aguados, tocadora oficial de tambor no centro espírita.

Porém, dedicar-se foi preciso, para que ela chegasse ao agora, sete meses, dois dias e quase onze horas depois, o coração batendo ligeiro, cabelos by cabeleireiro da amiga da noiva de um amigo recente, usando um vestido que parcelou em 24 vezes, os pés enfiados em um sapato que teve de negociar com a vizinha, dando em troca seu anel preferido, presente perfeito de seu pai no seu aniversário de quinze anos.

Respira fundo, escutando, de jeito meio bagunçado, as palavras do mestre de cerimônias. Repetindo para si, no pensamento, que valeu a espera para o desfrute desse momento que, apesar de breve, será único. É desejo, gosto, sonho a ser realizado em cinco, quatro, três, dois...

O burburinho é imediato. Espiando por detrás da cortina, ela vê as pessoas conferindo seus celulares. Será mais uma tragédia natural? Seu coração, que já batia rasteiro, agora se iguala aos tamborins da escola de samba, em plena avenida. O suor escorre pelo seu rosto, interferência teatral em sua maquiagem cuidadosamente arquitetada em seu rosto assimétrico. Sente o vestido lhe apertar de jeito a interferir em sua respiração, e quando a falação fica mais alta, ela tira os sapatos para ter um pouco de alívio.

Ah, o alívio...

Sentada à beira-mar, os cabelos presos em um nó, vestido com nem mesmo a primeira das vinte e quatro parcelas paga, desenlaçado na cintura. Sapatos jogados na areia, um par de horas desde a tragédia, que não foi natural, mas o suficiente para cancelarem o seu sonho.

Ela chora, copiosamente, contemplando o dia nascendo, sete meses e quase três dias depois daquele momento em que decidiu que apenas uma coisa, a realização que ela escolhera, poderia dar significado a sua existência.

O que lhe surpreende, neste momento, que nem de longe é aquele, o momento, é que ela chora copiosamente por deslumbramento, fascinada que se sente pelo dia nascendo, diante de seus olhos. Assim como pela leveza que, durante sete meses e quase três dias, ela se recusou a sentir.

Imagem:  Femme et Oiseau dans la Nuit © Joan Miró

carladias.com

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2 comentários:

Palloma Valéria disse...

As vezes nem tudo o que sonhamos vira realidade , pois é , sonhamos muito alto e só aprendemos com tombos que levamos da vida ..
Parabéns por ter retratado isso Carla Dias !

Carla Dias disse...

Palloma... A delícia da vida é justamente essa: surpresas, inclusive a respeito do que acreditamos estar definido. Beijo e obrigada pela leitura.