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JORNALISMO OU ENTRETENIMENTO? >> Clara Braga

Com a aproximação do Oscar eu começo a minha corrida particular contra o tempo para assistir à maioria dos filmes que estão concorrendo. É quase impossível para mim assistir a todos, mas faço sempre questão de assistir ao máximo que puder. Dentre os que já assisti estão Garota Exemplar e O Abutre, que inclusive me decepcionei um pouco quando vi que quase não foi indicado a nenhuma categoria. 

Deixando de lado minhas impressões pessoais, os dois filmes levantam uma questão em comum que muito me preocupa: a forma como o jornalismo vem sendo tratado cada vez mais como uma questão de entretenimento e não de informação. O que importa é que mais e mais pessoas estejam ligadas naquele canal, naquela hora exata. O que importa é que o dinheiro entre, e se o que vende é tragédia, vamos dar tragédia para as pessoas! E as que mais vendem são exatamente as mostradas nos filmes, aquelas com muito sangue, de preferências que a gente possa ver os ferimentos das pessoas bem de perto, que é para sofrer junto. Ou então aquelas em que membros de uma mesma família se matam, ninguém nem sabe se foi isso mesmo que aconteceu, mas também nem tentam entender, o importante é achar um culpado, nem que para isso seja preciso maquiar um pouco a notícia.

Quando assistimos aos filmes, ficamos chocados, indignados, como pode algo assim acontecer? Então chegamos em casa e nos deparamos com a notícia do carioca que vai ser executado na Indonésia. Um coitado carioca que pediu socorro até para o Papa e não teve seus pedidos de clemência atendidos. Um pobre instrutor de asa delta que só queria entrar na Indonésia com um pouco de cocaína. Então o país fica comovido, acha terrível, a querida presidenta tenta intervir, todos admiram seu esforço, mas nada feito. E a mídia com certeza comemorou, com certeza vende mais dizer que o cara foi executado e contar os detalhes de como foi, quantos tiros, onde foi, se ele sofreu, do que simplesmente dizer que ele foi solto e está sendo levado de volta ao Brasil. Nós, no sofá da nossa casa, inocentes, não percebemos que agora já somos todos abutres.

Pesquisando um pouco mais a fundo a tal execução, vi que essa conversa de instrutor de asa delta não passava de hobby que foi colocado como profissão para não dizer o que o próprio carioca dizia: a profissão dele sempre foi traficante, nunca nada mais do que isso. Passou a vida traficando, viajando e, para se vangloriar, guardava junto com ele fotos dos locais maravilhosos e mulheres belíssimas com as quais já esteve, tudo conquistado com muito dinheiro conseguido da sua real profissão: traficante! Mas toda essa leve omissão na história já era de se esperar, afinal, sabemos muito bem que hoje, se quisermos ganhar apoio popular, não temos que lutar para contar a verdade, mas temos sim que contar o que a mídia quer passar, nem que para isso a notícia precise ficar um pouco apelativa.

Que fique muito claro que eu não estou aqui defendendo a execução, sempre fui contra a pena de morte. Também sei que no meio dessas novas informações que surgem agora, também tem exagero, informações maquiadas e tudo mais que a gente sabe que a mídia faz. O que quero com isso tudo é dizer que temos que buscar sempre todos os lados de uma notícia, todas as informações possíveis antes de tirarmos uma conclusão, não vamos nos transformar nos abutres que mantêm um jornalismo raso.

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