sexta-feira, 15 de março de 2013

OS CAÇADORES >> Zoraya Cesar

O anúncio era bem simples, quase pobre: “Alugo casa em vila, bairro nobre, rua **, preço abaixo do mercado. Procure o proprietário no local após as 19h”. O papel estava colado em um poste, igual àquelas propagandas que prometem trazer o amor de volta em três dias. Não tinha desenhos, cores, qualquer tipo de chamariz. Era mais um anúncio grudado num poste, que, assim como centenas de outros, passava totalmente despercebido. Totalmente? Não. Havia dois tipos de pessoa que, não por acaso do Destino (que este senhor não acredita em acasos), lia a mensagem.
Uma velha senhora, sem parentes, sem amigos e sem cachorro; um estudante de filosofia, vindo do interior, tímido demais até para perguntar as horas (quanto mais morar numa república cheia de gente desconhecida); um professor aposentado, viúvo e sem filhos. Pessoas que passavam mais despercebidas que o anúncio, que não faziam falta a ninguém, e a quem a chance de morar numa vila, em condições tão vantajosas, não podia ser desperdiçada.
Não sabemos de outros, mas estes, com certeza, procuraram o proprietário para fechar negócio. Uma vez instalados na vila, de lá não mais saíram.
Vamos ao segundo tipo de pessoa que percebia aquele anúncio em particular, em meio a tantos outros: Lucrécio Lucas quase não acreditava em sua sorte. Era exatamente o que procurava há meses! Uma vila. Um aluguel barato. Um encontro após o anoitecer.
Ele não ficou exatamente feliz, mas excitado e apreensivo. Muito. A situação exigia uma preparação severa e astuciosa. Se algo desse errado... era melhor não pensar nisso. E Lucrécio Lucas – cujo nome fora dado pela avó em homenagem à amante do marido (mas isso é outra história) - estava no ramo há alguns anos, tinha uma certa experiência. E até então nunca fora pego.
Mas não havia tempo a perder, por isso, na mesma noite, bateu no endereço anunciado. A porta abriu. E Lucrécio Lucas sobressaltou-se. O serviço seria mais difícil do que imaginara. Oxalá não fosse mais difícil do que se preparara.
Ela era um camafeu, de tão delicada, o cabelo branquinho, branquinho – e agora o chavão se faz inevitável – como algodão fofo e muito, muito velhinha mesmo. Se colocasse uma touca, seria a personificação da avó da Chapeuzinho Vermelho.
A voz suave da avozinha convidou-o a entrar. A sala parecia ter saído direto de um livro de contos de fadas, e imediatamente ele se sentiu aconchegado, relaxado, quase sonolento. Como sabia que aconteceria.
A doce velhinha serviu-lhe um chá, cujo inconfundível aroma de papoula deixou Lucrécio em alerta. Foi então que ela sorriu, e o coração dele bateu mais forte. Dentes naturais, perfeitos, que contrastavam com a decrepitude do resto do corpo.
Ele saltou para a frente, desembainhando a curta cimitarra de prata que trazia escondida e tentou arrancar-lhe a cabeça. Numa rapidez surpreendente, ela desviou-se e imediatamente contra-atacou. O golpe cortou profundamente o rosto de Lucrécio e atirou-o para longe.
A situação tornara-se crítica: ele, ferido e envenenado pelas garras da velha; ela, incólume.
Lucrécio Lucas cambaleou, trôpego, até a porta, mas a velha correu para impedir-lhe a fuga, colocando-se entre ele e a saída. Era o que Lucrécio queria. Endireitou o corpo e, num único golpe semi-circular, decapitou-a.
Já tonto, tirou do bolso uma ampola e dela bebeu um estranho e viscoso líquido verde, urgia cortar o efeito do veneno fatal.
Não havia sangue escorrendo pela sala, mas a cabeça, mesmo separada do corpo, gorgolejava terríveis maldições e ameaças macabras. Lucrécio Lucas teve ímpetos de chutá-la, mas era um profissional. Segurou-a pelos cabelos, cuidando de não ser pego pelos dentes mortíferos e colocou-a num saco de veludo negro, cheio de sal grosso e eucalipto. A boca emudeceu.
Andou pela casa, esperando encontrar alguma das vítimas ainda viva, mas, infelizmente, todas estavam irremediavelmente mortas. A velha vampira não guardava para comer depois.
Ele ligou para um dos integrantes do Grupo.
- Oi, sou eu. Encontrei aquela amiga de longa data que estávamos procurando. Estou bem, mas preciso de mais dois de nós aqui. E chame o Padre Tércio. Temos algumas Almas para encomendar e uma confissão para arrancar.
Ele desligou e esperou, cansado. Sentiu pena das vítimas. Nessa luta não havia um dia da caça, outro do caçador. Os dias eram sempre dos caçadores. De um lado do Caminho ou do outro.


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10 comentários:

aretuza disse...

Puxa!!! Melhor que a saga dos vampiros da Stephanie Meyers!!!
Será q a minha vizinha velhinha-fofinha pode ser um deles??!!!

Anônimo disse...

ai, gente, nunca mais confio em uma velhinha na vida, rs...

quero saber como andam as investigações da morte da velhinha dos pombos e da mãezinha gagá...

quem manda escrever histórias com gostinho de quero mais, rs...

bjs,

Ana

Cecilia Radetic disse...

Zo, vc está se superando. saga crepusculo? não é só ler zoraya!

Alexandre Durão disse...

Zoraya.
Ontem, por volta das seis da tarde, segui com os olhos um homem que carregava um saco de veludo negro. Ele atravessou a rua, com um passo levemente arrastado, e entrou numa agência de banco. O conteúdo do saco parecia ter vida própria. Agora, começo a entender.
Beijos, e continue nos fazendo ver coisas.

Debora Bottcher disse...

Valha-me! Um crônica de susto! :) Jamais imaginaria isso vindo de vc, Zoraya! :)
Um beijo.

Erica disse...

Zoraya, o que você bebeu antes de escrever isso?!!! Tá ficando cada vez mais alucinada hahaha Eu esperava qualquer coisa, menos isso... vou começar a tomar cuidado com as coisas que te conto, porque sua imaginação é algo "que vem do aquém do além, adonde que véve os mortos." rsrsrs

Zoraya disse...

Aretuza e Ana, nunca confiem em velhinhas(os) fofinhas(os). Essa é a regra. Todos os livros e filmes ensinam isso, né? Só os velhos durões e rabugentos são legais, rsrs
Ceci, agora então só falta eu ter uma ideia tao brilhante quanto a autora do Crepúsculo!
Alexandre, gostei da ideia!
Ui, Débora, essa não é a primeira croônica de sustinho não! E isso porque nunca na vida consegui assistir um filmezinho de terror sequer!
Erica, surpreender o Leitor é um dos prazeres mais intensos de um escritor (ou aspirante, o meu caso). Lembrar do vampiro do Chico Anysio é covardia...
Abraços a todos

Anônimo disse...

Uau, macabra, nunca mais vejo casa em vila com aluguel convidativo...parabéns!Aglae

Carlos H. disse...

uau! que gostinho bom. Proêmio despretensioso, curso inquietante e enigmático, desfecho sublime.
Admirável a maneira como a trama é preparada, a polidez com que monta essa teia, com o propósito gentil de emaranhar o leitor junto à estória. Fios sutis, mas firmes que encantam e apavoram. Como o aroma inocente de uma flor, pensava-se apenas um cravo, que se rompe na narcose de uma papoula.

albir disse...

Zoraya,
obrigado por mais um susto num texto impecável.